A atitude condiz com o personagem: Diogo Freitas do Amaral destoa, desde o primeiro momento, num Governo em que o colectivo prevalece e se desconhecem, por enquanto, estados de alma.
Neste Governo, há os outros e há Freitas do Amaral. Há os que aceitaram incondicionalmente ser ministros e há o ministro que só o fez depois de saber o nome dos outros membros do Governo.
Há os ministros que aceitaram o silêncio imposto pelo primeiro-ministro e há o ministro que tornou público, através de um artigo publicado na imprensa, as regras da sua aceitação do cargo.
E aí bate o ponto as regras não são, desde o início, iguais para todos.
E é a esta luz que o ministro dos Negócios Estrangeiros esclareceu, na língua de Shakespeare, a sua posição pessoal sobre a constituição europeia - que tem a particularidade de não coincidir com a posição oficial do Governo português.
E o que disse de tão grave Diogo Freitas do Amaral? Sublinhou que este tratado - que alguns insistem em referendar - já não é viável, e que se deveria começar a trabalhar noutra solução. Ou seja, disse o óbvio, fazendo uso da lucidez que tem faltado à maioria dos líderes europeus.
Dir-se-á que não é convencional o ministro dos Negócios Estrangeiros exprimir posições pessoais.
Acrescentar-se-á que não é próprio da diplomacia um ministro dos Negócios Estrangeiros assumir, numa reunião internacional em que está como representante de um país, divergências de opinião com a posição oficial do seu Governo.
Em ambos os casos somos tentados a concordar. Mas conviria olhar para o fundo da questão. O reparo de Freitas do Amaral revela bom-senso e comporta uma censura legítima aos que insistem em construir uma Europa de costas voltadas para os cidadãos.
E voltamos ao início - a atitude desalinhada de Diogo Freitas do Amaral face a uma posição oficial do seu Governo poderá ser formalmente condenável, mas é, no essencial, uma prova de lucidez e inteligência.
A conclusão parece óbvia a atitude de Freitas do Amaral, concertada ou não com o primeiro-ministro, deve ser entendida como início do fim do referendo à constituição europeia
(in DN de hoje)