Há nas notícias sobre o estado do tempo um "pormenor" inquietante - o factor recorde. Por exemplo, esta semana, em Portugal, as temperaturas poderão atingir mínimos históricos. Como Janeiro terá sido o mais seco de que há memória. Ou que o Verão de 2003 tenha sido o mais quente do último século.
Há uns anos, a gente simples das aldeias, meio a sério meio a brincar, dizia que tais desarranjos meteorológicos tinham começado quando o homem desceu na Lua.A sabedoria popular tem limites, mas mesmo neste caso há um fundo de verdade. Os extremos climáticos a que assistimos nada têm a ver com a aventura espacial, mas não é tolice atribuí-los ao desenvolvimento tecnológico e industrial, que, entre outras coisas, colocou os primeiros terráqueos em órbita.
Os alertas sobre os malefícios que os humanos estão a causar ao clima multiplicaram-se nos últimos anos. E foi a partir dessas preocupações que a comunidade internacional acordou o Protocolo de Quioto (entrou em vigor a 16 de Fevereiro), destinado precisamente a reduzir a emissão de gases para a atmosfera responsáveis pelo chamado aquecimento global. Mas nunca um relatório científico tinha ido tão longe como aquele que foi apresentado, há um mês, por encomenda do Governo britânico no âmbito da presidência dos países mais industrializados (G8). Sob o título "Enfrentar o Desafio do Clima", o documento alertava que as longas secas, as vagas de frio, o aumento do nível do mar, a extinção de espécies são realidades com as quais teremos de conviver muito mais cedo do que esperávamos. Mas, pior - alertavam os cientistas britânicos e australianos -, temos pouco mais que uma década para arrepiar caminho. Por exemplo, apostando nas energias renováveis em detrimento das fósseis (petróleo), ou exigindo a grandes poluidores (a China, a Índia...) que respeitem compromissos sobre poluição.A ecologia já esteve mais na moda e os ecologistas queixam-se que ninguém os ouve. O problema deixou, porém, de dizer respeito a minorias ou militantes. É já uma questão de sobrevivência. E a resposta, por muito boas vontades individuais que haja, só pode ser global e depende dos governos. Haja quem os pressione.
( Editorial do DN de hoje )