05 abril 2004

Boa semana

Depois de um fim-de-semana com tempo bem distribuído pela família, pelos amigos, pelos gatos e, inclusive, com tempo para mim... depois de ter tido tempo para pensar bastante em ti, entro no carro e ainda em sonhos penso: "Que bela vida, que dia tranquilo, será domingo? Onde andam eles? Não há trânsito? Não há confusão na rua? Xocolaty entraste no carro e vais trabalhar num domingo!"

Oiço as notícias no rádio e fico a saber que afinal estou acordada! Andei a sonhar no fim-de-semana e voltei à vida real. O locutor acordou-me com as belas notícias da realidade:

- Hopitais S.A. com relatórios e contas adulterados a pedido do Ministro da Saúde e com a concordância da Ministra das Finanças. As fantásticas empresas deram lucro, pois foi omitida a compra de medicamentos; (assim também eu criava uma super empresa)

- Governo sabia que a Bombardier ia fechar desde Janeiro, através de um estudo pedido nessa altura. No entanto, não tiveram oportunidade de garantir postos de trabalho e a subsistência destas centenas de famílias; (governar ocupa-lhes demasiado o tempo)

- Familiares das vítimas da tragédia de Entre-os-Rios sentem-se abandonados pelo poder local e acusam o Presidente da Câmara de se ter servido deles para ascenção política... (e valerá a pena comentar esta?)

De volta à vida real! Boa semana para vocês!

02 abril 2004

Pensamento do dia

Beijar-te é como trincar um pêssego e aproveitar cada gota de doce, cada pedaço de fruta, sempre com a certeza que a próxima dentada pode não ter o mesmo sabor, nem o próximo pêssego ser igual!

(dedicado à Melancia, esse pilar do Frutoxocolaty, para que coma muitos "pêssegos" nas férias e volte ainda com mais paciência para nos aturar!)

Paixão de Cristo

Ontem fui, finalmente, ver "A Paixão de Cristo". Não me chocou a violência física, não me impressionou os "bidons" de ketchup usados pelo Mel Gibson, embora confesse que fechei muitas vezes os olhos para não ver as chagas e as consequências da tortura que Jesus passou.

Para mim, muito pior que a violência física que o filme contém, é a violência psicológica, é o ter consciência que hoje, 2004 anos depois, as mentalidade mantêm-se. É imaginar que ainda hoje, 2004 anos depois, o Homem ainda faz as mesmas perguntas e ainda não encontrou as respostas: "Onde está a Verdade? Como atingi-la? Como reconhecê-la?"

Hoje, no século XXI, no ano 2004, milhões de católicos por todo o mundo professam uma fé cujas origens não conhecem. Citam um livro, cujo teor não entendem, nem meditam.

Chorei, sem ser católica, ao pensar apenas isto: Se Jesus fosse vivo, hoje, morreria da mesma maneira, com a mesma crueldade.

Quantos católicos já pensaram nisso? Quantos católicos sabem a verdadeira definição da palavra Amor? Quantos sabem o que significa a frase em torno de todo o filme, em torno de todo o sacrifício de Jesus Cristo: A Verdade Universal do Amor...

É época de Páscoa. Talvez a melhor altura para os cristãos meditarem nestas coisas...

vou de férias ...mas volto!

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Durante uns dias vou estar ausente deste espaço. Vou de férias durante a próxima semana.

Vou para uma pequena aldeia, muito próximo da Serra da Estrela, em plena Beira Baixa.

Lá, na minha pequena casa, não tenho computador, telefone, aparelhagem de som, a televisão não se liga e cozinhamos a forno de lenha. Temos tempo para falar com os vizinhos. À noite lemos ou conversamos em família.

O tempo tem outra velocidade, as horas não contam, o que conta é o passar da vida.
Passeamos pelo campo, ouvimos os ruídos da terra: a água do rio Alva a passar por entre as pedras formando pequenas cachoeiras, o vento assobiando entre o arvoredo, os pássaros logo pela manhã, aí pelas 7.00, os bois que passam para irem lavrar as terras, os rebanhos que saem para os pastos, a chuva batendo nas janelas, enfim sons que aos meus ouvidos soam a música. Nunca tenho saudade dos toques do telefone ou campainha de porta.

Quando passeamos pelo campo arranjo sempre forma para ir ensinando a minha filha Maria que tem onze anos, a conhecer o nome das árvores, , a conhecer a forma de identificar o rosmaninho, o alecrim, a giesta, os cardos. Se sei o nome do pássaro que vai a passar digo-lhe. Sabemos o nome dos cães e gatos nossos vizinhos.

Sei que vou ter saudades vossas! Todos os dias vou pensar nos que virão aqui para me ler e não me vão encontrar. Como sou optimista digo a mim própria - melhor assim, quando voltar já terão saudades…

Entretanto desejo que todos aproveitam os feriados religiosos que irão prolongar o próximo fim-de-semana. Aproveitem bem, sejam felizes e obrigada por me aturarem!


01 abril 2004

A política e a mentira

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Para assinalarmos o Dia da Mentira deixamos aqui algumas ideias:

- "os portugueses nunca penalizam os governantes por faltarem à verdade";

- "ou as mentiras dos nossos políticos são mais singelas ou os portugueses convivem melhor com a falta de verdade";

- "além de tolerarem as mentiras, os portugueses normalmente também se consolam com o mal dos outros";

- "na Assembleia da República, o substantivo "mentira" e o adjectivo "mentiroso" polvilharam os debates ao longo de quase 30 anos de democracia";

- a troca de galhardetes faz-se invariavelmente entre a oposição e as bancadas que suportam o Governo em funções. O que é verdade para uns é mentira para os outros.

- "a vá o povo , sem dotes de analista político, saber quem subverte a realidade";

- "os políticos portugueses podem dar graças por as respectivas fadas-madrinhas não serem tão severas quanto a de Pinóquio".

( fonte: Diário de Notícias de hoje )

31 março 2004

bloco de notas da melancia

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Será que alguém acredita que o Prof. Marcelo lê aqueles 50 livros que ele diz ter lido durante a semana e ao domingo comenta???
(fazer um pequeno inquérito a amigos e colegas )
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Não esquecer de perguntar aqui às outras frutas e sabores...

o pensamento de hoje...

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Uma alegria compartilhada transforma-se numa dupla alegria; uma tristeza compartilhada em meia tristeza.

( autor desconhecido )

30 março 2004

poderemos salvar os oceanos???

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Temos preocupações ambientais e somos sensíveis a todas as notícias que nos retratam os problemas que põem em risco as coisas que amamos. Sim gostamos todas muito de mar!
Hoje encontrei esta notícia no “Diário de Notícias”


150 mares em risco por falta de oxigénio

Cerca de 150 zonas de oceanos e mares de todo o mundo têm falta de oxigénio, o que constitui uma ameaça para as reservas de peixe. De acordo com um relatório ontem divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) essas áreas, consideradas «zonas mortas», resultam da acumulação de um excesso de nutrientes, como o azoto, produzidos por fertilizantes agrícolas ou pela poluição automóvel e industrial.

Segundo os especialistas da ONU, essas zonas são «uma grande ameaça» para as reservas de peixe e para as comunidades humanas que dependem da pesca. O documento será apresentado durante o Fórum Mundial Ministerial do Ambiente que se iniciou ontem em Jeju, na Coreia do Sul, e que termina quarta-feira. Neste encontro participa uma delegação portuguesa chefiada pelo secretário de Estado do Ambiente, José Eduardo Martins.

O relatório das Nações Unidas - «Dimensão Ambiental da Água, do Saneamento e das Instalações Humanas» - sublinha que a utilização abusiva de fertilizantes no planeta e o crescimento de zonas oceânicas sem oxigénio são duas novas questões a que os governos de todo o mundo devem dedicar mais atenção. «Em algumas regiões, como em muitos países africanos, a falta de azoto impede que a agricultura dê resposta às crescentes necessidades alimentares. Essas regiões sentem desesperadamente falta de suplementos para fertilização. Todavia, em muitos outros países do mundo, o uso excessivo de fertilizantes químicos agrava o problema das zonas mortas», explica-se naquele relatório.

Muitas das zonas oceânicas consideradas «mortas» pela falta de oxigénio são de pequena dimensão, mas outras chegam já a atingir os 70 mil quilómetros quadrados. As primeiras zonas mortas apareceram no Mar Báltico, no Mar Negro e a norte do Mar Adriático. Outras surgiram depois na América Latina, China, Japão, sudeste da Austrália e Nova Zelândia.

Não queremos que de futuro estes mares, sejam apenas imagens de arquivo, que iremos deixar como legado aos nossos netos!

29 março 2004

Nota complementar ao post anterior

Tenho saudades de escrever...

flores para a Xocolaty!

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A Xocolaty anda com muito trabalho. Tanto que tem dias em que não almoça.Chega a casa muito tarde e nem tem tempo para vir aqui ler-nos. Mal tem tempo para ela e para os seus queridos "meninos": os três belos gatos.
Se eu soubesse copiar imagens para dentro do Frutoxocolaty agora iria publicar um belo ramo de papoilas, as flores que a Xoco mais ama.
Assim resta-me dizer que gostava de lhas oferecer e deixar aqui as muitas saudades que temos dela.
Um dia feliz para ti amiga !!!



N.R. da Xocolaty - Melancia, obrigada e aqui fica a imagem (fico feliz com a fotografia de apenas uma papoila, em vez de um lindo campo vermelho).
Obrigada e um beijinho grande para todos!

era uma vez um país...

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que parecia inventado! Viveu esquecido e abandonado ao sabor de ventos totalitários e políticas fascistas durante meio século. Tinha apetites de colonizador. Coisa que lhe vinha desde há séculos ainda andava de caravelas por esses mares fora. Gostava de se misturar com os povos que encontrava mas também gostava de lhes sugar tudo , o ouro, café, cacau, pedras preciosas e até escravos.
Dando provas de que não estava totalmente a dormir este povo levantou-se e fez uma revolução. Foi admirado e respeitado por isso. Fez as descolonizações.
Nesse país tudo era inesperado e surprendente. O povo que parecia adormecido, votava por hábito, vivia ao sabor do correr dos dias. Não havia hábitos de leitura nem a cultura era acessível .A educação era um problema crónico e a as questões com a saúde serviam para o povo inventar as mais pitorescas anedotas.
Mas o futebol era o orgulho nacional. Todos vibravam às segundas de manhã discutindo o desempenho da sua equipa e não havia ninguém que não conhecesse a cotação dos principais jogadores. Havia uma falta quase generalizada de infra-estruturas de apoio à infância: creches, jardins escola, bibliotecas. As escolas de regiões interiores estavam a fechar pois a natalidade estava a decrescer. Mas este povo construiu nada mais nada menos do que dez estádios de futebol, do mais moderno que havia para a realização de um evento internacional.
A glória do futebol estava no seu apogeu. Todas as televisões lhe prestavam tributo com longos directos dos novos estádio, dando mais material de interesse para as segundas de manhã.
É verdade que havia coisas que entristeciam este povo. Tinham um caso
de pedofilia . Havia uma crescente violência urbana. Havia um agravamento da toxicodependência Tinham um governo ao ataque nas conquistas da revolução. Todos os dias saíam leis para retirar mais um pouco do que havia sido conquistado e sobretudo este povo via todos os meses o seu rendimento a descer e o custo de vida a aumentar. Havia um desenfreado apetite legislador em todas as áreas que pudessem transmitir segurança aos patrões e que o governo anunciava com o toque de trompas como sendo a única forma de saírem da crise.
Neste país surgiu um juiz que depressa o povo apelidou de “super-juiz”. Tinha o caso da pedofilia e passou a ser um rosto conhecido. Quando parecia que já ninguém acreditava na justiça, ele disse numa entrevista: “Ser juiz é a melhor profissão do mundo”.
Neste país de lendas e fábulas o primeiro ministro visitava os países que haviam emergido das antigas colónias. Numas dessas visitas a um país pobre e subdesenvolvido, que havia sido tratado durante séculos de política colonialista com o saque das suas riquezas naturais ele apresentou o antigo país colonizador da seguinte forma: podem contar connosco para o vosso desenvolvimento, e paternalista disse: “ainda mais importante do que a língua é o facto de termos uma linguagem comum,. Uma maneira de ser e de sentir que partilhamos em vários aspectos”. O povo esqueceu décadas de guerra colonial mais décadas de guerra civil, esqueceu os mutilados e os soldados sem emprego e bateu muitas palmas e dançou para o primeiro ministro do país europeu que o havia colonizado.
Neste pequeno país de lendas, poetas, futebol e milagres religiosos, governado por uma "plutocracia", ainda há quem continue a acreditar na busca quotidiana de uma vida melhor!!!

26 março 2004

um pensamento para o fim-de-semana...

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" Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la. Porém se a não corrigires, não a alcançarás.Entretanto não te resignes."

(José Saramago - História do Cerco de Lisboa )

notícias de um país surreal...

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Existe um país belo e solarengo de lindas paisagens à beira mar plantadas.
Nesse país o povo vive feliz e ligeiramente distraído. Gostam de música, de futebol e de cantar a vida de uma maneira muito original: o fado.
País de poetas, de grandes escritores, este país é visitado por milhões de pessoas em busca das suas belíssimas praias e da sua deliciosa maneira de receber.

Mas esse belo país tem desde ontem um problema. Desde ontem o mundo ficou a saber que nesse país as pontes caem de causas naturais.

Durante séculos as pontes construídas pelos romanos resistiram a todos os vendavais e a todo o tipo de tormentas. Estão ainda muitas orgulhosamente inteiras, de pé, desafiando todos os cálculos da engenharia actual.

Mas outras constuídas na actualidade podem cair devido a cheias...

Assim um juiz, deste país surreal, irá ficar na história da jurisprudência. Ontem ele anunciou ao mundo que uma ponte sobre o maior rio da região norte deste país, caiu por causa das cheias de 2001.

O aviso ficou a pairar no ar: então e as outras pontes, viadutos e passagens superiores também poderão cair de causas naturais???

Não se sabe ainda o que pensam os engenheiros dos organismos oficiais que existem com a função principal de fiscalizar e manter seguras estas estruturas, pois devido ao adiantado da hora em que a decisão do juíz foi conhecida, ainda não houve tempo para um comunicado oficial.

De futuro qualquer um terá que andar mais atento às previsões do tempo. Não poderá continuar distraído, antes de viajar tem que saber se irá chover muito, pelo que deverá evitar qualquer ponte, pois é natural que possam cair...

E desde ontem que o povo está avisado, não deve passar sobre as pontes em dias de grandes chuvadas pois a passagem de veículos sobre as pontes provoca a sua queda.

25 março 2004

hoje estou assim...

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Encontrei ainda há pouco num pequeno verso da Sophia de Mello Breyner Andresen, no livro “O nome das Coisas”, as palavras que eu gostaria de ter escrito sobre o meu estado de espírito:

“ Dia

Mergulho no dia como em mar ou seda
Dia passado comigo e com a casa
Perpassa pelo ar um gesto de asa
Apesar de tanta dor e tanta perda “



saudação da primavera...

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Andávamos tristes. Muito tristes e cansadas do Inverno. Quando pensávamos escrever todas sentíamos muito cinza à nossa volta. Precisávamos de uma mudança visual que nos desse uma nova alma.
Temos outros paladares para entrar no nosso dia-a-dia.
Aconteceu!
Estamos hoje cheias de azul, flores, borboletas e esta magnífica lua que nos enche de luar. Apetece namorar passeando nesta noite de lua cheia!
Aqui no Frutó abrimos a época para o romance, a felicidade, e a esperança que seja possível viver num mundo melhor.

Para esta mudança ser possível, contámos com a ajuda amiga do D. Quixote. Um grande beijo para ele, (aqui eu já devia de saber fazer o “link” para o blog dele, o”Poetry Café”, nem conto as vezes que a Xocolaty já me ensinou, mas de facto burra velha não aprende …) sozinhas não tínhamos conseguido. Eu não percebo quase nada de computadores, sou uma ocasional “utilizadora”.
As outras variedades de sabores e frutas estão umas com problemas no trabalho outras sem tempo para escrever.
Enfim estamos com nova maquilhagem e umas roupinhas de tempo quente. O fundo a lembrar mergulhos em águas cristalinas e muito pouco que fazer.

Proponho um brinde aos dias felizes. Brindemos!!!

Espero que gostem. São sempre bem-vindos!

23 março 2004

pensamentos da melancia

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E agora???Quem estará nas miras dos mísseis, por esse mundo fora???
Ódio e mais ódio para justificar o aparecimento de mais ódio.
Já dizia Ghandi:" olho por olho e o mundo acabará cego ".

22 março 2004

será a paz uma utopia???

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Israel está em estado de alerta máximo depois da morte do líder espiritual do Hamas, o xeque Ahmed Yassin. Milhares de palestinianos manifestam-se nas ruas de Gaza e da Cisjordânia e o correspondente da BBC nos territórios ocupados reporta a fúria e raiva da multidão, que não reúne apenas os partidários do movimento islamista. O mundo reagiu com apelos à calma e contenção dos dois lados.

A Brigada dos Mártires de Al-Aqsa, braço militar do movimento Fatah, do líder palestiniano Yasser Arafat, veio já declarar guerra a Israel e disse que «dentro de algumas horas» dará uma resposta à morte do xeque. Também o Hamas prometeu fazer correr o sangue de «centenas» de israelitas para vingar a morte do seu líder. Diz o movimento de Yassin que o primeiro-ministro israelita, Ariel Sharon, «abriu os portões do inferno». E promete um «tremor de terra» para Israel.

Entretanto, Ariel Sharon felicitou as tropas pela morte do chefe espiritual do Hamas. Sharon justifica o assassinato alegando que «o povo judeu tem o direito a golpear aqueles cujo único objectivo é a nossa exterminação». Por sua vez os EUA negaram qualquer implicação no ataque.

Quantos inocentes irão morrer agora com as ameaças de vigança do Hamas???

pensamento para hoje...

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A paz vem de dentro de ti próprio, não a procures à tua volta.

( Buda )

19 março 2004

Pai!

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Chamava-se Lenine. Nasceu no Alentejo pobre, rude e abandonado pelo fascismo.
Aos seis anos, em vez de ir à escola , andava a guardar porcos pelos montes. Verão ou Inverno, descalço ,mal vestido e com fome. Sim, passou fome. Era analfabeto. Dizia com amargura que as primeiras botas que calçou foram as da tropa.
Durante a tropa, no final da segunda guerra, foi para os Açores. Lá conheceu a rapariga mais linda que até aí tinha visto. Amou-a, voltou ao continente sem ela., mas ela veio atrás dele.
Deixou a sua terra à procura de um futuro melhor na capital do país. Foi trabalhar numa grande fábrica têxtil. Aí formou-se a sua consciência política. Enraizou-se nele uma profunda consciência de classe. Sempre se situou aí. Sabia onde estavam os exploradores e os explorados.
Fez exame de instrução primária já com filhos na escola. Sabia discutir Marx e Engels. Era um autodidacta. Amava os livros e a palavra escrita. Sabia do que falava e interpretava o que lia. Ao ouvi-lo podíamos pensar que era licenciado em ciências políticas. Fazia poemas de inspiração repentina, não os escrevia mas declamava-os com uma dicção impecável.
Chamava-se Lenine e isso custou-lhe ser perseguido. Esse nome valeu-lhe anos de desemprego e perseguição.
Aos trinta e seis anos num acidente de trabalho na fábrica, ficou sem a perna direita, abaixo do joelho. Acabaram-se os jogos de futebol com amigos e colegas e acabaram-se os bailes. Era bom bailarino. Dizia que durante muitos anos sonhava que tinha os dois pés.

Era alegre, jovial cheio de actividade e nunca aceitou a mutilação, sofreu muito para se habituar a andar com uma prótese. Durante alguns anos encontrou uma fuga para a sua desventura no álcool.

O seu anjo da guarda foi a Maria. Ela foi durante toda a sua vida, a partir do acidente, as duas pernas que ele não tinha, a sua ajuda a sua amiga.
Foram anos difíceis, de pobreza e desamparo, mas nunca deixou de amar os filhos acima de todas as coisas ele era um bom pai. Depois a sua grande paixão foram os netos. Eram a luz dos seus olhos. Não se inibia de lhes dedicar um grande carinho.

Era meu pai!
Faz hoje dez anos que estive com ele pela última vez. Era dia do pai, calhou ao fim-de-semana e houve almoço para toda a gente lá em casa. Estava feliz o meu velho.

Morreu no dia 26 de Março, passada uma semana, uma operação de urgência aos intestinos levou-o. Não tive tempo de me despedir dele e de lhe dizer pela primeira vez que o amava. Não tinha sido uma convivência fácil a nossa. Ele era autoritário e rude como a terra que o viu nascer, e eu era uma adolescente muito rebelde. Tivemos as nossas acesas discussões. Mas ele não desistiu nunca de me mostrar que as suas ideias e ideais eram o caminho para uma vida de adulto responsável e consciente. Na altura eu não sabia, mas estava a aprender, a absorver e a cimentar uma grande amizade com ele.
Já às portas de morte a última coisa que disse a uma irmã minha, com uma voz quase inaudível, foi : dá beijinhos aos meus netos. Foi a sua despedida. Partiu nessa mesma madrugada.
Morreu-me e faz-me falta. Ainda estou de luto. Com ele também partiu a mulher que a minha mãe era. Se ela foi as pernas que ele não tinha, ele foi a alma da casa a alma da família. Ela está lá, mas mais de metade dela partiu com ele.
Que saudades meu velho! Ainda guardo no meu coração a tua voz cantando o teu Alentejo amado!

18 março 2004

um pouco de poesia...

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OFÍCIO DE VIVER


Vou sempre além de mim mesmo
em teu dorso, ó verso.
O que não sou nasce em mim
e, máscara mais verdadeira
do que o rosto, toma conta
de meus símbolos terrestres.
Imaginação! teu véu
envolve humildes objectos
que na sombra resplandecem.
Vestíbulo do informulável,
poesia, és como a carne,
atrás de ti é que existes.
E as palavras são moedas.
Com elas, tudo compramos,
a árvore que nasce no espaço
e o mar que não escutamos,
formas tangíveis de um corpo
e a terra em que não pisamos.

Se inventar é o meu destino,
invento e invento-me. Canto.

(Ledo Ivo
Poeta brasileiro
Personalidade das mais relevantes do Neomodernismo )