02 março 2004

pensamento para o entardecer...

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Sorri, embora seja apenas um sorriso triste. Porque mais triste que o sorriso triste é a tristeza de não saber sorrir.

( autor desconhecido )

este fim-de-semana não foi possível...

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escrever aqui no frutó.

Andámos todas muito ocupadas. A Xocolaty continua muito "tontispada". Esteve "de molho" falando bom português. Com a enorme camada de gripe que a deixou totalmente "apanhada", ela nem conseguia pensar.
A Gelatina foi passear.
A Bananas não sabemos dela, mas desconfiamos que tem novo namorado.
A Ginja também está doente. Continua de cama.
Eu tive a minha filha mais nova também muito constipada. Foi um fim-de-semana para esquecer. Não sei se deram pela nossa falta mas de facto foram uns dias muito esquisitos...

Ainda tentei no intervalo, entre dar o antibiótico e o antipiréctico à Maria e todas as tarefas que uma mulher tem ao fim-de-semana, estar atenta às notícias sobre a convenção socialista, as broncas do futebol, o tráfico de orgãos humanos em Moçambique, coisas que me arruinam a cabeça...

Mas hoje e minha menina está melhor, voltou à escola, com um pouco de tosse, mas muito melhor e eu estou aqui...

Vou num instantinho dar uma volta pelos blogues dos vizinhos mais estimados e depois volto.

Até já!!!

27 fevereiro 2004

seriam boas notícias...

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se eu tivesse esperança e a capacidade de ainda acreditar.

Parece que o governo publicou um diploma que estabelece que a segurança social e o fisco vão cruzar dados dos contribuintes. O sistema de interconexão de informações visa prevenir a fuga e evasão fiscal.

Entretanto já estão a pensar juntar a este esquema as seguradoras e os notários.

Fiquei espantada. Não sei se sonhei se foi verdade que ouvi isto há pouco durante a hora de almoço.

Dizem que o objectivo é a moralização dos contribuintes e beneficiários.

Não sei se consigo acreditar…

Publicidade

Eu avisei que a Sissi iria surpreender!

Aqui vai um cheirinho do capítulo de hoje:

"(...) Seis meses após a promoção a lavadora de cabeças, as três colegas cabeleireiras diplomadas da Sissi morreram misteriosamente. A primeira morreu esmagada por um piano de cauda, que aterrou de um terceiro andar em cima da cabeça da pobre coitada. A segunda foi atacada por uma espécie de formigas africanas, quando esperava pela Sissi numa esplanada na baixa lisboeta. A terceira foi assassinada à paulada por desconhecidos, talvez membros das FP-25 e nunca identificados.(...)"

26 fevereiro 2004

lindo!!!!!

" (...)
Chega mais perto e contempla as palavras,
cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito,
elas se refugiam na noite, as palavras.
Ainda húmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo."

(Poema Procura da Poesia, Carlos Drummond de Andrade - poeta brasileiro )

desabafos da melancia...

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O proprietário de um café em Samora Correia , cansado de pedir o pagamento das dívidas, resolveu publicar na montra a lista dos caloteiros.

Parece que deu resultado. Ao fim de pouco tempo só faltava receber de um.

Proponho que a nossa querida Manela Cara de Horror siga este inovador processo e publique as seguintes listas de alguns caloteiros:

- patrões que não pagam à Segurança Social
- empresários que não pagam ao fisco
- clubes de futebol com os impostos atrasados ( há vários anos )
- proprietários da casas de luxo, carros de luxo, barcos de luxo (e outros luxos ) que na declaração de rendimentos dizem ganharem o ordenado mínimo.

Para já eram só estas listinhas, pode ser que me venha a lembrar de mais algumas…

25 fevereiro 2004

Palavras sinceras que guardei para ti...

Hoje sai do escritório e, sem saber nem como nem porquê, dirigi-me ao nosso cais. Sabes aqueles gestos automáticos que cada um de nós tinha, em que ambos sentíamos uma necessidade enorme de ir a qualquer lado e no fim do destino estava o outro, pelo mesmo motivo?

Hoje foi assim! Conduzi o carro hipnotizada. Estacionei no nosso cais, em frente ao rio. Deitei-me a ouvir a água a bater na madeira, a olhar as estrelas, alheia ao trânsito que insistia em fugir de Lisboa. Deitei-me a ver as estrelas no céu e dei por mim a pensar em nós, no quanto que te amei e amo… no quanto tinha para te dizer e já não digo.

É difícil explicar porque tenho de te dizer aquilo que nunca disse em anos de amor. É difícil dizer que, por detrás da mulher rebelde, que conheceste e que guardas na memória, existe alguém calmo capaz de amar. É difícil dizer-te que te amei e amo e mesmo assim prefiro estar sem ti! É difícil! Eu sei!

Eu sei que foi difícil ouvir, ao fim de tanto tempo a brincar às escondidas: “Foste o único homem que amei. Por favor não me procures mais!”. Acreditas se te disser que foi ainda mais difícil dizê-lo?

Mas, descobri hoje, que amar é isso. É mais que sentir o cheiro da tua pele, é mais que beijar os teus lábios, é mais que deitarmo-nos debaixo das estrelas e fazermos planos para o futuro. Amar-te é deixar-te ser quem és, sem te pressionar. Amar-te é deixar-te viver sem mim, mantendo-me no teu coração. Amar-te é sentir-me feliz por te voltar a ver na rua, por trocarmos de olhares cúmplices que mais ninguém entende e dizer-te: “Fico feliz por saber que estás bem!”

Amar-te é mais do que dizer amo-te! E isso eu não te sei dizer, nem explicar. Amar-te é pegar no telefone, digitar o teu número e desligar. É ter consciência que tudo o que vem depois da felicidade, já não se chama felicidade! Amar-te é ver-te feliz numa vida que eu nunca te poderia dar e saber que dentro de ti existe uma mulher, guardada num cantinho especial, que sou eu! É saber que, tal como eu penso em ti, também tu me recordas com o mesmo carinho!

Hoje descobri que o destino já não nos junta mais. A sintonia de pensamentos já não está tão apurada. Já não nos dirigimos ao mesmo local, sem nada combinado. Já conseguimos olharmo-nos nos olhos e seguir cada um o seu caminho. Isto sim é Amor! É entender que o magnetismo que nos une pode cegar.

Não te posso dizer isto pessoalmente. Pois sei que ambos não conseguiríamos resistir à verdade, à palavra do coração.
Amar-te é também ter coragem de te dizer não.

Mais uma vez, provo que estou igual e mais uma vez me vais acusar de fugir ao compromisso. Mais uma vez escorrego-te por entre os dedos, dizendo amo-te e quero que sejas feliz sem mim.

Se somos almas gémeas? Ainda duvidas? Se nos amamos? Será o brilho dos teus olhos mais intenso que o meu? Porque fujo de ti? Porque te amo de mais para querer que sejas uma recordação triste. Estás guardado num canto especial dentro do meu coração e manter-te-ei eternamente aqui, como te mantenho há demasiadas vidas.

E se amanhã for diferente? Amanhã é outro dia! Logo se vê…

gatos...

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«Eles vieram caminhar ao longo dos rios
Esses gatos ao sol de um negro luzidio
De paz e de ternura

Eles vieram perfurar no espírito o silêncio
A dor das cores ausentes
Mas depostas no limiar das pedras

Nada me falta desde que respiro
com eles a mesma margem.»


In "Palavra de Gato"
Robert de Laroche
Pergaminho

24 fevereiro 2004

Carnaval

Ontem,
coloquei a minha melhor máscara,
usei a minha melhor roupa,
coloquei o meu melhor perfume,
aproximei-me de ti

e amei-te!

Hoje,
disseste-me que uma desconhecida
te tinha feito sonhar com um mundo melhor.
Disseste-me que uma desconhecida
te tinha feito amar.

Olha melhor!
Talvez ela sempre tenha estado a teu lado,

usando uma máscara diferente!

Vim aqui perguntar...

- É preciso saber ler para se ser carteiro?

É que eu tenho na minha caixa do correio um autocolante com letras garrafais que diz "Publicidade não endereçada, não obrigado!"... e eles insistem em colocá-la!

Ó meus amigos publicidade não endereçada significa: "Não quero ler mais porcarias do Continente, OBRIGADA!"
Como quem diz: Não é pura, simples, analitica e dissecadamente NÃO!

Chatos pá!

23 fevereiro 2004

Psssttttttt Psssssttttt

Vim aqui a correr só agradecer os comentários a desejar as melhoras.

Hoje já estou boa. Tão boa tão boa que, peço o favor aos senhores das obras do túnel das Amoreiras, para se calarem quando eu passar! ahahahah

Agora falando a sério:
Estou muito bem disposta e carreguei as baterias novas que comprei na feira da ladra. Estas têm uma autonomia de 80 horas em conversação e 300 horas em descanso.

Preparem-se para os próximos posts aqui e no meu bebé chamado Coincidências, onde a maluca da minha meia irmã Xobineski Patruska publicou mais uma personagem pseudo-blog-pop!

21 fevereiro 2004

Aviso

É só para avisar que estou muito tonstipada e que não consigo escrever mais. Estou no limite das minhas forças!

O post aqui debaixo ficará exibido até que a gripe me deixe raciocinar de novo.

Quanto às minhas companheiras de Blogue, estão todas de férias algures sei lá onde...

Se nada for publicado até Quarta-feira, é sinal que a gripe me ceifou a vida em pleno auge criativo! Aproveito ainda para informar que a minha vasta fortuna (os meus trezentos e tal livros) são deixados aos meus gatos, com a indicação que a "Divina Comédia" de Dante foi prometida ao Serafim, há três anos atrás. Por favor não deixem a Cleópatra ficar com ele!

Entretanto, deixo-vos o post sobre a eutanásia com a indicação que é uma história verídica!

Espera por mim, Amor...

Fizeram trinta anos de casados, em Março. O João ofereceu à Alice uma rosa vermelha que comprou numa sex shop, daquelas que as pétalas são umas cuecas fio dental. Juntou-lhe um cartão e escreveu: “Para a mulher da minha vida! Que as nossas almas se mantenham juntas e o nosso casamento continue uma maravilhosa noite de núpcias por mais trinta anos!”. A Alice abriu a prenda em frente aos amigos e corou. Enfim, aos cinquenta anos ainda corava quando se falava de sexo em frente aos filhos. Estava feliz. Foram sete anos de namoro e trinta de casamento com um homem maravilhoso.

O último dos três filhos casara em Janeiro e, realmente, o João tinha razão. As suas noites pareciam núpcias. Corriam todos os cantos da casa, inventavam posições, amavam-se depressa, devagar, assim-assim… como se tivessem vinte anos de novo. E não tinham? Voltou a corar, ao recordar-se que aquela mesa, onde todos jantavam, tinha sido usada nessa manhã para outros fins.

Eram pobres, mas eram muito felizes. O João e a Alice pertenciam ao restrito grupo das pessoas brindadas com o Amor. Os três filhos eram a prova disso. O Amor vivia naquela casa e aquecia os corações que lá entrassem. No entanto, a vida é madrasta e prega-nos partidas que não esperamos, talvez porque a felicidade seja um sentimento temporário ou talvez porque a vida seja mesmo assim! Aproveitar ao máximo os bons momentos e recordá-los nos maus é a única coisa que podemos esperar da vida.

Duas semanas depois da comemoração do aniversário, o João foi ao médico. Queixava-se há uns dias duma comichão na garganta, doía-lhe quando engolia e a voz saía rouca. Foi ao médico e fez análises e exames. Tinha um cancro na garganta! Combinaram lutar juntos contra a doença. Haviam de ultrapassar mais aquele obstáculo! O João insistia em viver!

Passaram seis meses e, finalmente, o João foi operado. A doença alastrara, os medicamentos não travaram o cancro e na operação tiraram-lhe as cordas vocais. Deixou de falar e escrevia o que tinha para dizer. Entretanto a Alice pediu baixa no trabalho para assistir o marido. Os dias transformaram-se em pesadelos. O João gemia vinte e quatro horas seguidas e só parava para vomitar. Não conseguia engolir nada, pois vomitava logo de seguida. A Alice emagreceu dez quilos nestes dois meses de agonia. Lavava três máquinas de roupa por dia, cheias de lençóis e toalhas que empapavam a bílis que o João vomitava.

O João foi novamente operado. Desta vez ao estômago! O médico deu-lhe seis meses de vida. Até lá, deveria permanecer em casa, pois não existem vagas nos hospitais para doentes terminais. Quanto a lares… em Portugal não se criam lares para este tipo de doentes, saem caros e o governo tem de poupar para comprar BMW para os gestores públicos.

Felizmente, conta a Alice aliviada, morreu passados três meses. Rebentou-lhe o fígado e morreu. A Alice conta-me esta história com um ar misto de dor e alivio. Diz que hoje, passados quatro meses da morte do João, as paredes e o tecto ainda cheiram a bílis. Ainda ouve o marido gemer no silêncio da casa e recorda com mágoa os gemidos que ele dava, o olhar de dor com que ele a fixava, como se lhe pedisse para o ajudar. Como se lhe dissesse: “Alice mata-me agora!”

Em Portugal não existem doentes terminais. Os números não correspondem à realidade. Morre-se em casa com a assistência básica e vive-se com a ajuda da família e dos amigos. A eutanásia é proibida tal como o aborto. Uma vida é uma vida e … os números não reflectem a dor de quem aguarda que a morte chegue depressa e misericordiosa.

Em Portugal, somos todos, cínica e hipocritamente, bons cristãos e escondemos debaixo do tapete a porcaria que não queremos que se veja. O João morreu como morrem muitos portugueses, a agonizar na cama. Explodiu-lhe o fígado ao fim de três meses da última operação! "Felizmente!" Diz a Alice lavada em lágrimas. E acrescenta numa voz baixa de quem tenta esquecer o último ano de dor: “Espera por mim, Amor!”

20 fevereiro 2004

bloco de notas da melancia...

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" Incomoda-nos mais e dói mais ver os defeitos daqueles de quem gostamos. Se uma pessoa nos é inteiramente indiferente, os defeitos dela não nos incomodam tanto, não é? Mas quando se trata das nossas próprias mazelas - que são nossas, do país de que nós gostamos, a que nós pertencemos, em que nós estamos profundamente entranhados , numa cultura que é de facto a nossa e tendo nós, como temos, praticamente já novecentos anos de História - tudo isso magoa profundamente e eu gostava que não existisse."

(Mário de Carvalho em entrevista hoje no DNA - Diário da Notícias )

Uma entrevista a ler ... (se calhar "era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto ")

uma frase para hoje...

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Não somos um aglomerado de barro e o que é decisivo não é aquilo que de nós fizeram, mas o que nós fazemos com o que fizeram de nós.

(Jean Paul Sartre )

19 fevereiro 2004

um momento de humor

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Uma anedota cai sempre bem!!!

Numa reunião com o Presidente da Suíça, Durão Barroso apresentou-lhe os
seus ministros:

-Este é o Ministro da Saúde, este é o Ministro dos Negócios Estrangeiros,
este é o Ministro da Educação, este é a Ministra da Justiça, este é a
Ministra das Finanças... etc.
Chegou a vez do Presidente da Suíça:

-Este é o Ministro da Saúde, este é o Ministro dos Desportos, este é o da
Educação, este o da Marinha...

Nessa altura Durão começa a rir:

-Ha! Ha! Ha! Para que é que vocês têm um Ministro da Marinha, se o vosso
país não tem mar?

E o Presidente da Suíça responde:

-Não seja inconveniente, que quando você apresentou os Ministros da
Educação, da Justiça e da Saúde, eu também não me ri.

Lisboa

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Na passada terça-feira fui a Lisboa, uma consulta médica levou-me lá. Nos dias de semana ir a Lisboa pode representar uma enorme tortura pois somos flagelados pelas mais diversas agressões. Enfim temos que viver com o pesadelo do trânsito caótico, do estacionamento selvagem, de poluição sonora e atmosférica e ainda acalentar a esperança de que o autarca-candidato-a-presidente-da-república cumpra as promessas eleitorais ainda neste mandato.

Mas a cidade é sempre bela, sempre uma enorme sensação de vida cosmopolita e um universo a descobrir.

Terça porém, não sei se por estar mais sensível aos “toques” do que me rodeava ou se por estar um dia cinzento e muito frio, quando cheguei à cidade os termómetros diziam que estavam 3 graus, dei por mim a reparar na quantidade de pessoas a pedir esmola ou a dormir nos abrigos de autocarros. Vivem para lá do limiar de mais absoluta pobreza. Estão condenados a vegetar com fome e ao frio sem que se vislumbre qualquer esperança. Muitos deles, os que dormem enrolados em cartões, já desistiram, nota-se pelo olhar vazio, já não se sentem “gente”.

Aquilo que me deixou meditativa foi a quantidade de sentimentos contraditórios que me assaltaram. As dúvidas dentro de mim são mais que muitas: o que representa para aquela pessoa que está na minha frente a esmola que lhe dou ou não? De que forma a estou a ajudar? Que papel reservo para mim perante aquele ser humano sofredor? Que mais posso fazer depois de dar a esmola?

E ao passar pelos que morrem lentamente no chão, como ajudar??? Eles já nem esmola pedem! Que posso fazer???

Perante estas dúvidas, deixei a minha amada Lisboa muito triste. Triste, meditativa e muito deprimida.

Resolvi que escrever isto poderia ser uma outra forma de intervenção. Não posso ficar calada. Nunca conseguirei ficar indiferente perante a dor de alguém, eu que me comovo e compadeço até do cão mais miserável. Tenho que fazer a última pergunta: A quem pedir soluções, quem pode dar abrigo e comida a quem precisa???

Ah! Lisboa, cidade das sete colinas, majestosa, altiva, de poetas e cantores, que tantas almas atrais, que chegam em busca de uma vida melhor e são abandonados por ti!!!


18 fevereiro 2004

Um dia vamos ficar juntos!

Foi numa descida de elevador com o meu colega André que eu tomei a decisão. Não podia esperar mais. Já se tornava evidente para os olhos mais sensíveis. Enquanto esperávamos pelo elevador, o André não parava de me fixar. Segurou a porta para me deixar entrar e quando o elevador começou a descer, ele olhou-me nos olhos e disse-me: “Você está mais forte não está? Forte não é o termo, acho que você está mais roliça e no entanto mais bonita. Está com um olhar brilhante e cara de mulher feliz e bonita. Já vi essa cara e não me consigo lembrar onde.”

Corei de desespero. Apeteceu-me sair naquele piso e descer as escadas sozinha, mas seria demasiado óbvio. Ele iria em breve associar que o meu corpo estava roliço, a barriga grande, os seios inchados, apenas porque estava grávida. Afinal ele era pai de quatro filhos. De gravidez e de grávidas perceberia ele…melhor que ninguém ali!

Nessa mesma tarde peguei no telefone e liguei para Espanha. Combinei tudo para essa mesma sexta-feira. Não podia esperar mais. A seguir ao André viriam outras pessoas. Porra, estava com dois meses e vomitava só pelo cheiro do café. Tinha uma barriga evidente e aquele olhar brilhante de grávida feliz. Na realidade sentia-me feliz. É tão bom sentir no nosso corpo uma vida que não é a nossa mas é. Vivemos uma vida plena, cheia de emoções e de histórias para contar e mais tarde recordar, mas nada é como ter um filho que se desenvolve no nosso útero a cada segundo que passa. Uma vida que se alimenta da nossa, algo que criamos só nosso…

Apetecia-me ir até ao fim para ver como ele era. Apetecia-me parir o meu bebé. Já tinha vinte e seis anos e o meu relógio biológico dizia-me: “Vai em frente, depois logo se vê!”

No entanto, o Álvaro estava desempregado e eu ganhava bem mas sustentava a casa e as coisas na empresa corriam mal. Chegava tarde a casa, chateava-me com o Álvaro que não entendia que eu tinha reuniões e demasiadas coisas para tratar. Chorei demasiadas noites em silêncio na cama, enquanto ele dormia. Chorava de tristeza por não ter condições de olhar um dia para o meu bebé. Ele foi apanhado desprevenido, ainda mais que eu. Pois, nestas coisas, os homens não sentem como nós. Falta-lhes o ventre e a vida que cresce no ventre! Deixou-me decidir. Disse que me amava, acalmou-me e explicou-me que acima de tudo queria que eu me sentisse bem. O que eu escolhesse seria o que ele iria aceitar. Um dia havíamos de ter um filho e haveríamos de o amar e de lhe proporcionar tudo o que ele merecesse e muito mais.

O despertador tocou, a musica inundou o silêncio do quarto e eu levantei-me. Eram cinco da manhã do grande dia. Era o dia em que voltaria cheia de dores, ou simplesmente morreria nas mãos dos médicos. Entrei na banheira e enquanto a água do duche corria, pela última vez, em cima do meu ventre inchado, pensei que ainda ia a tempo de mudar de ideias, de desistir, de ser egoísta e de viver o momento. Amanhã logo se veria e amor não lhe ia faltar. Sempre poderia telefonar à minha mãe e pedir-lhe para voltar para a cama. Badajoz seria passado e o meu menino ia nascer.

Convenci-me, depois de muito chorar, que não podia ser. Que direito tinha eu de trazer ao mundo um bebé numa vida destas? Que direito tinha eu de pari-lo sem condições para o alimentar?

Entrei no quarto e o Álvaro acordou. Olhou-me, sentado na cama e perguntou-me com um ar demasiado sério: “Tens a certeza que é isso que queres fazer? Queres mesmo ir em frente?”. Respondi-lhe que sim, que não podia pensar só em mim e no desejo de ser mãe. Não era só a minha vida que estava em jogo, mas outra mais importante que a minha e que iria exigir (e com razão) todas as condições necessárias para ser feliz. Disse-lhe: “Vou abortar, Álvaro. O bebé não merece nascer num momento destes! Vou em frente, Amor!” Ele beijou-me a testa e massajou-me o ventre e no meio da agonia que eu estava a passar, só conseguiu dizer-me: “Amo-te demais para te querer ver sofrer e concordo contigo. Só te peço que tenhas calma e que me telefones quando acabar. Tudo vai correr bem e tu vais voltar.”

A auto-estrada até Elvas vazia e a velocidade do carro fizeram-me acalmar. Conduzir sempre me relaxou. O pensamento de que não podia ser egoísta não me saia da cabeça. A minha mãe seguia calada a meu lado e atrás ia uma amiga dela que deveria conduzir o carro na volta. Enfim, também já tinham passado por aquilo e temiam, sobretudo, pela minha vida, pela minha saúde e por que tudo corresse bem para poder engravidar noutro momento. Em Elvas levantei 400 € no banco e partimos de novo para Badajoz. Os espanhóis são simpáticos, profissionais e educados. Ali não há nomes, há respeito pela decisão de uma mulher. No entanto, a interrupção da gravidez é paga em dinheiro, em notas.

Não me lembro quanto tempo estive sobre o efeito da anestesia geral. Sei que acordei e levantei-me como se nada me tivesse acontecido, para espanto de todos os que me rodeavam. A minha mãe entrou na sala a chorar e agarrou-se a mim, beijando-me repetidamente e dizendo: “Estás bem! Estás bem! O médico diz que correu tudo bem. Estou tão feliz por estares viva querida. Temi durante todo este tempo que algo corresse mal.”

Depois de devidamente munida duma declaração em como tinha interrompido a gravidez em Espanha e informando as autoridades portuguesas que em Espanha não é crime interromper a gravidez, sai e atravessei a fronteira. Estava grávida ainda. O meu corpo estava na mesma e sentia os mesmos enjoos e falta de paciência. Dormi no banco de trás do carro, pois era condição imperativa estar deitada nas quarenta e oito horas imediatas à cirurgia. Correu tudo bem felizmente. Posso engravidar de novo e no dia em que tiver condições para dar uma vida feliz ao meu bebé.

Hoje, quando oiço a polémica do aborto, assumo ter abortado e assumo ter optado bem. Se voltasse atrás faria exactamente o mesmo. O homem que disse amar-me revelou-se um tirano e poucos anos mais tarde sofri de violência doméstica. Agradeço a Deus não ter tido um filho que sofresse os mesmos traumas que eu sofri em criança. Agradeço não ter tido um filho que visse a mãe a levar porrada do pai. Eu prometi-lhe naquela manhã no duche que ele iria nascer, um dia mais tarde quando eu tivesse a certeza que ele iria ser feliz. Sei que ele entende e aguarda algures no lado de lá, o momento certo para ser amado e amar.

Quando vi que as mulheres de Aveiro que, como eu, tiveram a coragem de optar, foram ilibadas, fiquei feliz. Eu senti na pele a dor da escolha e ainda hoje, passados três anos, sonho com o meu filho e como ele seria. O pior castigo que uma mulher pode ter é ter um dia que dizer não à vida que cresce dentro de si. Essa é a mais dura de todas as opções e o mais pesado de todos os castigos. A humilhação em praça pública é o mais baixo de todos os actos e quem o exige não pode nunca dizer que sabe o que é amar parte de nós que se gera dentro do nosso ventre. Amar é optar!

Da mesma forma que optei por atrasar o meu papel de mãe, também optarei um dia por dar a minha vida por um filho. O amor é isto, é entender que o mundo não gira à nossa volta, mas sim à volta de todos os que nele habitam.

Eu abortei e abortarei as vezes que forem necessárias, até ter a certeza que posso proporcionar ao meu filho o amor que ele merece!

17 fevereiro 2004

Aqui...

... no topo de Lisboa, onde o dia se confunde com um inferno de trânsito, de buzinas de automóvel, de apitos da polícia, aqui onde o céu é o limite e as pessoas são formigas que passam para o trabalho... estou no céu!

Hoje estou no meio de uma nuvem e em vez de ver Lisboa, vejo o algodão imenso que me rodeia.

É bonito sim senhor. Muito bonito. Até já me esqueci do castigo para cá chegar e do pouco que dormi e da vida que custa a endireitar-se!

Hoje estou no céu!

16 fevereiro 2004

Esclarecimentos

Muitos são os leitores que nos têm brindado com visitas e elogios no Há Coincidências, o que muito nos alegra e nos dá ainda mais alento para continuar as histórias das mirabulantes personagens.

No entanto, temos recebido alguns mails com dúvidas sobre a origem da ideia ou, até mesmo, criaturas novas na Blogosfera e menos atentas ao que já se escreveu e fez, acusando-nos de plágio.

Ora, no meu entender, esta última questão é demasiado forte. Plágio é a palavra errada para definir não só este blogue como os demais sócios na aventura do Best Seller Há Coincidências.

Sou a primeira a assumir que a criatividade é o meu maior problema. Já pensei, inclusive, em abrir uma barraquinha na Feira da Ladra com o letreiro: Vendem-se ideias e fazem-se cartas de amor, ódio, comerciais, ou aquilo que o cliente precisar. Também pensei, e ainda não exclui a hipótese, de trabalhar como "negra" para um escritor qualquer, usando o nome dele e as imensas histórias de gentes e vidas que habitam o meu cérebro demasiado activo.

Como no Frutó Xocolaty e no Há Coincidências não existe lugar para mal entendidos ou para potenciais comentários menos inteligentes ou menos educados, cumpre-me repetir aqui algo já dito há dois meses:

- O Há Coincidências surgiu no dia em que escrevi um post sobre um livro da Margarida Rebelo Pinto, em Dezembro passado, quando fiquei chocada com uma citação de Nietzshe no dito livro. O post é agora linkado para melhor se entender a lógica do blogue livro.

- A ideia surgiu de um comentário do Bichinho de Conta ao post atrás referido e o livro foi criado neste preciso momento em que anunciei no Frutó Xocolaty.

Em suma, resta-me agradecer em nome de todos os pseudo-pop escritores do Há Coincidências a vossa visita e interesse demonstrados. Quanto aos distraidos que também criaram um livro, resta-me dizer que sejam bem vindos e não tencionamos acusá-los de plágio, pois de onde vêm estas ideias virão outras ainda mais brilhantes. A concorrência é saudável e, pessoalmente, acho que escrever é a melhor forma de podermos evoluir.