24 janeiro 2004

Dúvidas Existenciais

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Hoje lavei a cabeça com o Champô Herbel Essence e não tive nenhum orgasmo.

Estou preocupada!

Das três, uma, duas, três ou nenhuma:

- O meu frasco de champô está estragado;
- A menina do anúncio usou Champô para cabelos normais e eu usei um regenerador;
- O problema está no facto de não ter usado a casa-de-banho de um avião.

Será que a Deco me pode ajudar a reclamar?

Que chatice pá...tanto dinheiro e nem um bocadinho de orgasmo...

23 janeiro 2004

Querido João,

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Mais uma vez é Sexta-Feira e mais uma vez me telefonaste a dizer que vais chegar tarde, porque vais trabalhar durante a noite e depois vais jantar com os colegas.

Mais uma vez vais ter com ela, mais uma vez te vais deitar na minha cama com o cheiro dela, mais uma vez vais trazer no teu corpo o cheiro do sexo com ela! Mais uma vez, João.

No entanto, desta vez eu não vou estar em casa, deitada na cama à tua espera. Desta vez João, a casa vai estar vazia. Desisti de viver contigo. Desisti de usar uma aliança de um casamento que já não existe há muito. Desta vez João, podes voltar para a cama dela. Pouco me importa agora e pouco me importou nestes três anos de vida dupla que levaste.

Cansei-me de ser tua empregada. Desculpa, cansei-me de ser tua escrava. Hoje foi a última vez que cosi um par de meias teu, foi a última vez que fingi partilhar a mesma casa contigo. Ontem foi a última vez que me bateste!

Os miúdos estão em casa dos meus pais, até eu os poder levar comigo. O cão também lá está. Agradeço que não me procures e agradeço também que não me chantageies de novo. Não quero saber!

Estas são as últimas lágrimas que tenciono derramar pela porcaria de vida que tenho a teu lado. Este foi o último mês que abdiquei de um creme facial por uma grade de cervejas para ti!

Não me procures no trabalho! Despedi-me há dois meses e hoje foi o meu último dia lá. Vou para o estrangeiro. Vou emigrar para bem longe de ti e do inútil que te tornaste.

Não penses que estou magoada contigo, não te guardo rancor. Todos os minutos de violência que me proporcionaste, todas as nódoas negras que o meu corpo conheceu, todas as mentiras que me contaste, todos os peidos e arrotos que deste já não me chocam, já não os sinto. Posso, inclusive, garantir-te que todas as noites que estiveste com ela, foram, para mim, um alívio. Todas as horas, minutos, segundos que passaste longe de mim foram momentos abençoados. Foram momentos de reflexão, de crescimento interior. Foram dias em que procurei ajuda e em que planeei este divórcio, a fuga desta jaula em que o nosso casamento se tornou.

Algures no tempo, algures no desenrolar das nossas vidas, optámos por caminhos diferentes. Tu assumiste o papel de macho e eu fui obrigada a assumir o papel de vítima.

Tenho trinta e dois anos e uma década de vida passada ao lado de um homem que não me ama, que não me olha como a mulher que sou. Estou cansada de me anular por ti, com medo que te zangues, com medo das coisas que me dizes em público para me envergonhares, para me rebaixares.

Hoje João, quando leres esta carta, vais pensar que eu vou voltar porque tenho medo que fiques com as crianças. Não penses, pois tu não sabes pensar. Há três meses que estou a tratar do divórcio com um advogado e há três meses que tenho fotografias tuas… com ela! Tenho testemunhas e provas de todo o mal que me fizeste…a mim e aos meus filhos! Desta vez, estou preparada para a tua chantagem e para a guerra que tencionas montar!

Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida! Hoje é o primeiro dia de uma vida de Liberdade, longe de ti e do monstro que te tornaste!

Adeus, João!

Beijos,


Alice

P.S. – Está um tabuleiro em cima da cama com a tua roupa para passar a ferro. Leva-o à tua amiga, para ela se entreter!

Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes

1
Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.

2
Não te candidates, nem te demitas. Assiste.
Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira.
Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.

3
Tira as rodas ao peixe congelado,
mas sempre na tua mão.
Depois, faz um berreiro.
Quando tiveres bastante gente à tua volta,
descongela a posta e oferece um bocado a cada um.

4
Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre
um caixote com serradura à tua espera.
Pode haver. Se houver, melhor...
Esta deve ser a tua filosofia.

5
Tudo tem os seus trâmites, meu filho!
Não faças brincos de cerejas
sem te darem, primeiro, as orelhas.
Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.

6
Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que
te puseram em cima da cabeça?
Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.
É provável que te sintas logo muito melhor.
Sai, então, de baixo da pedra.

7
Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra.
Poderias atrapalhar os trabalhos.
Os de pedra sobre pedra, entenda-se.
Mas dá sempre um "Bom dia!" ao pessoal do estaleiro.
Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.

8
Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre
com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo
a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia.
Oxalá o consigas!

9
Tens um glorioso passado futurível,
mas não fiques de colher suspensa,
que a sopa arrefece.

10
Se tiveres de arranjar um nome para uma personagem
de tua criação, nunca escolhas o de Fradique Mendes.
A criação literária não frequenta o guarda-roupa,
muito menos quando a roupa tem gente dentro.

11
Resume todas estas sentenças delirantes numa única
sentença:
Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa.

Alexandre O'Neill "Poesias Completas"

Bom fim-de-semana!

22 janeiro 2004

Xocolaty líquida...

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Este vizinho derreteu-me...

Nota para Memória Futura nº 578,34512 e 3/4

Ai que eu estou tão aliviada!
Ai mas que alivio tão grande!

Finalmente os deficientes podem ter relações sexuais. A igreja reconheceu que eles também gostam.
Só foram precisos 21 séculos. Foram rápidos, sim senhor!

E agora serão precisos quantos séculos para o Vaticano se pronunciar sobre o pecado chamado Preservativo?

pensamento perfeito...

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Aprendemos a amar não quando encontramos a pessoa perfeita mas quando conseguimos ver de maneira perfeita uma pessoa imperfeita.

A VÃ GLÓRIA DE RIMAR

De sílabas de letras de fonemas
se faz a escrita. Não se faz um verso.
Tem de correr no corpo dos poemas
o sangue das artérias do universo.

Cada palavra há-de ser um grito.
Um murmúrio um gemido uma erecção
que transporte do humano ao infinito
a dor o fogo a flor a vibração.

A Poesia é de mel ou de cicuta?
Quando um Poeta se interroga e escuta
ouve ternura luta espanto ou espasmo?

Ouve como quiser seja o que for
fazer poemas é escrever amor
e poesia o que tem de ser é orgasmo.

POESIA-ORGASMO, José Carlos Ary dos Santos

"O nome de Ary dos Santos diz-lhe alguma coisa?" perguntou o Diário de Notícias aos portugueses, em jeito de homenagem ao poeta no vigésimo aniversário da sua morte.
Triste mas previsivelmente, a maioria não sabia quem tinha sido Ary dos Santos.
No entanto, os portugueses sabem tudo sobre futebol - leem regularmente a Bola ou o Record; as portuguesas sabem tudo sobre casamentos e divórcios, traições e disfunções- leem regularmente a Maria, a Holla e outras perversões.
Só não sabem quem foi Ary dos Santos.
Que falta nos tem feito o José Carlos!!!

21 janeiro 2004

Os meus gatos

Hoje apetece-me escrever sobre este amor que dura praticamente desde que nasci. São vinte e nove anos de vida em que os gatos entram e saem da minha vida, de acordo verbal mostrando livre e plena vontade.

Foram muitos os gatos que amei e que partilharam a minha vida. Todos tiveram nomes. O meu primeiro casamento, que durou catorze anos, chamava-se Tareca. Conheci-a com sete anos e, na fase de criança rebelde e envolta em demasiados desgostos e preocupações para a idade, foi amor à primeira vista. Ela ia comigo ao supermercado, ela ia comigo brincar na rua, ia acampar para a praia e pulava atrás de mim na areia fugindo das ondas. Na adolescência e nos fins-de-semana passados com o namorado, a Tareca esperava pacientemente o meu regresso, deitada na minha cama, virada para a porta da rua, fazendo intervalos rápidos para comer e usar a casa-de-banho. Esperava por mim, como uma mãe espera pela filha que tarda em regressar e quando eu voltava era uma festa de miados e beijinhos.

A Tareca percorreu a minha infância, adolescência e, quando comecei a viver sozinha, manteve-se comigo como fiel companheira. Um dia ganhou um quisto numa mama e foi uma questão de meses até ao momento da morte. Chorei, como teria chorado por uma irmã, por uma filha. Só entende quem passou por uma experiência destas. É difícil descrever. Mas, hoje, passados cinco anos ainda recordo a Tareca deitada na cama sem se conseguir mexer, olhando-me nos olhos, miando baixinho. Na última noite de vida ela chorou. Levantou-se, veio na minha direcção, deitou-se no meu colo e gemeu baixinho, olhando-me nos olhos... como se chorasse no momento da despedida. Foi uma dor muito grande decidir abatê-la, poupar-lhe aquela dor e foi uma dor muito maior, mas um alívio, quando ela me morreu nos braços a caminho do veterinário. A minha doce Tareca, a mais doce recordação de infância e adolescência.

Nos dias seguintes, entrar em casa e ouvir o silêncio era horrível. Fugia de casa, evitava dormir aqui, na austeridade do vazio. Abria a porta e faltava-me a minha companheira de vida, que me seguia para onde quer que fosse, me aquecia no Inverno, me lavava as mãos, me avisava de quem subia as escadas.

Um dia tomei a decisão de ter mais um gato. Pouco tempo depois foi-me oferecido um gato preto de olho verde com três meses. Era uma pulga eléctrica saltitante e a casa voltou a ter vida. Eu voltei a arranjar desculpas para vir para casa. Tinha quem me esperasse. Queria chamar-lhe Sebastião, mas fui proibida pela minha mãe, não fosse o outro Sebastião sentir-se ofendido por ter um gato homónimo. O meu seria Sebastião José de Carvalho e Mello, mas foi rejeitado na mesma.

No entanto, eu defendo que os gatos devem ter os nomes adequados à sua personalidade e sempre sonantes, pois felino nenhum tem personalidade passiva. Ficou Barbazul, o gato preto que se torna azul, com o brilho do pelo na luz! Barbazul, o pirata que coleccionava namoradas pelo mundo.

Mais tarde decidi que deveria haver uma namorada, pois essa foi a minha grande mágoa com a Tareca. Morreu virgem! Falei com a Ginja, mãe adoptiva de cinco gatos e adoptada por outros vinte das redondezas.

Veio duma viela, algures em Almada, a gata mais bonita que alguma vez vi. Pequenina, toda ela redondinha, parecia uma gata Lua. Castanha e riscas negras como um Tigre, arisca como um Felino com um grande “F”, meiga como uma menina órfã à procura de casa. Chamei-lhe Cleópatra, não só pelas riscas nos olhos, que lembram os olhos da homónima, mas também pelo alter-ego revelado em tenra idade e que a tornou na dona da casa. Cleópatra a imperatriz cá da casa. A gata de motor sempre “on”. Está sempre a ronronar e a olhar para mim!

No auge da felicidade conjugal felina, passados três anos da primeira entrada, lembrei-me de passear num Centro Comercial e de olhar para uma loja de animais. Vi um gato pardo, igual à Cleo, a pular dentro de uma gaiola, eléctrico, feliz. No fundo da gaiola estava uma bola de pêlo preto redonda. Olhei melhor e constatei tratar-se de outro gato. Estava doente, triste, cheio de ramelas nos olhos e no nariz. As pulgas já tinham pouco espaço livre para pular em cima dele e a barriga estava demasiado inchada pelos vermes que a habitavam. Conclusão: paguei dois mil escudos e lá veio o terceiro hóspede cá para casa. Foi uma faca no coração da Cleópatra, que não gostou de dividir o espaço com mais um felino. Foi uma alegria para o Barbazul, que descobriu a sua veia de mãe e foi o começo dos rios de dinheiro que já gastei em gatos e veterinário. Chamei-lhe Silvestre em homenagem ao gato que insiste em perseguir o irritante Piu-piu.

O doce e inocente Silvestre desapareceu não me lembro bem onde, em que lugar do tempo… dando lugar a uma fera preta, louca, vingativa, tarada por pernas, demoníaca. Estava claro que o nome tinha sido mal escolhido, pois o pobre Silvestre era um santo sempre enganado pelo pássaro irritante e eu tinha trazido cá para casa um demónio de quinze centímetros. Então surgiu a conjugação de duas palavras demónio e negro, ou seja Serafim (de anjo) e negro porque ele é preto como o carvão. Ficou Serafim! Foi educado pelo Barbazul e pela Cleópatra, respectivamente mãe e pai. A Cleópatra batia-lhe e procurava qualquer tipo de desculpa para um confronto directo, o Barbazul (como uma verdadeira mãe) protegia o menino, lavava-o, alimentava-o, ensinava-o a caçar (não sei como isto foi possível porque o Barbazul nunca caçou uma única mosca), entrava em batalhas ferozes com a Cleópatra. Enfim…esta casa transformou-se num apartamento de gatos, comandada por eles, com os seus problemas conjugais e familiares e habitada por mim, com a sua permissão.

Hoje, não imagino a minha vida sem estas criaturas que me tratam como uma igual, que enchem o espaço de vida, que ocupam o meu coração de carinho e que me fazem sentir uma pessoa especial. Mostram-me com todos os símbolos que existem na linguagem felina que, ser-se amado por um gato, é ser especial, é estar acima do comum dos mortais. Ser-se respeitado por um gato é motivo de orgulho para qualquer ser humano.

Hoje sei que se os homens amassem como os gatos, com sinceridade e pureza, não havia lugar para guerras no mundo, pois apesar das diferenças, existe sempre espaço para mais um, desde que se tenha consciência do território alheio.

Só posso agradecer às centenas de gatos que me passaram pela vida o terem partilhado o seu espaço comigo e só posso agradecer aos meus três bebés deixarem-me viver cá em casa. Os meus três bebés que pesam oito ou nove quilos cada um e que insistem em deitar-se todos em cima de mim ao mesmo tempo, esmagando-me contra qualquer superfície e lembrando-me que eu sou a humana deles.

Evocando um poeta

A Máquina Fotográfica

"É na câmara escura dos teus olhos
que se revela a água

água imagem
água nítida e fixa
água paisagem
boca nariz cabelos e cintura
terra sem nome
rosto sem figura
água móvel nos rios
parada nos retratos
água escorrida e pura
água viagem trânsito hiato.

Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
o tempo de onze meses de ordenado;
por isso, meu amor, viajo a nado
não por ser português mal empregado
mas por sofrer dos pés
e estar desidratado.

Chego. Mudo de fato. Calço a idade
que melhor quadra à minha solidão
e saio a procurar-te na cidade
contrastada violenta negativa
tu única sombra murmurada
única rua mal iluminada
única imagem desfocada e viva.

Moras aonde eu sei.
É na distância
onde chego de táxi.
Sou turista
com trinta e seis hipóteses no rolo;
venho ao teu miradoiro ver a vista
trago a minha tristeza a tiracolo.

Enquadro-te regulo-te disparo-te
revelo-te retoco-te repito-te
compro um frasco de tédio e um aparo
nas tuas costas ponho uma estampilha
e escrevo aos meus amigos que estão longe
charmant pays

the sun is shining
love.

Emendo-te rasuro-te preencho-te
assino-te destino-te comando-te
és o lugar concreto onde procuro
a noite de passagem o abrigo seguro
a hora de acordar que se diz ao porteiro
o tempo que não segue o tempo em que não duro
senão um dia inteiro.

Invento-te desbravo-te desvendo-te
surges letra por letra, película sonora,
do sendo à vogal do tema à consoante
sem presença no espaço sem diferença na hora.
És a rota da Índia o sarcasmo do vento
a cãibra do gajeiro o erro do sextante
o acaso a maré o mapa a descoberta
dum novo continente itinerante. "

José Carlos Ary dos Santos
Obra Poética


(a nossa pequena homenagem para assinalar a data do 20º aniversário do seu "passamento" )

aquilo que não pode ser explicado

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entra por vezes na nossa vida e deixa-nos a pensar que se calhar existe um universo rejeitado por séculos de herança de cultura católica mas que nos faz pelo menos meditar.

Esta manhã ouvi na rádio, ainda dentro do carro e a caminho do trabalho, uma notícia no mínimo inquietante. Uma menina russa de 10 anos consegue ver o interior do corpo das pessoas. Os médicos que ao princípio não acreditaram, fizeram-lhe diversos exames e renderam-se. Ela consegue ser mais precisa nos diagnósticos que faz, que os aparelhos usados actualmente para esse mesmo fim. Ela vê e desenha o que vê com pormenores surpreendentes para a ciência.

Ao ouvir esta notícia pensei imediatamente numa personagem do José Saramago, a Blimunda do Memorial do Convento. A Blimunda antes de se levantar, tinha que comer pois isso anulava-lhe a capacidade de ver o interior das pessoas. A Blimunda sofria com o que via.

Também me recordei com saudade de algumas personagens femininas que passam pelos livros da Isabel Allende .Já há algum tempo que tenho o projecto de voltar a ler a Casa dos Espíritos e De Amor e Sombra. Quando os li a primeira vez fiquei deslumbrada pelas mulheres descritas e pela forma como as suas vidas se completam com um destino fantástico de visões e outras advinhações.

Imediatamente senti pena da menina russa. Que destino triste… conseguirá esquecer o que vê e ter uma vida normal de menina a entrar na adolescência?

20 janeiro 2004

Histórias de Coragem

Em cada clique de rato pelos (cada vez mais numerosos) endereços da Blogosfera encontro uma surpresa. As surpresas que mais me agradam são histórias de coragem levadas com bom humor ou com frontalidade.

O assunto gay representa na Blogosfera uma boa percentagem de blogues que insistem em escrever histórias de coragem. Talvez por serem marginalizados, por um tabú estupido, eles são mais unidos, mais coesos e mais frontais. Falo das histórias dos homens e das mulheres que um dia decidiram assumir que não eram heterossexuais.

É sem sombra de dúvidas um acto de grande coragem. Admiro-os e faço questão de o dizer alto e escrever as vezes necessárias. Admiro-os pela coragem de serem o que são, pela força em viverem como querem e pelo objectivo de simplesmente lutarem para serem felizes, fugindo das frustrações impostas por uma sociedade demasiado cínica para aceitar a busca de felicidade com a naturalidade que ela merece.

No príncipio descobri o Casal Gay, depois descobriu-nos o Boss (cliente assíduo e acarinhado pelas autoras cá da casa), de seguida fomos adicionadas aos favoritos do Homossexual e hoje veio a Sara, cuja visita retribuí e me inspirou este post, ao ler o desabafo de alguém que luta, aliás, que insiste em ser feliz.

Num assunto que considero não haver discussão possível, uma vez que cada um tem o direito de escolher o rumo que quiser dar à sua vida, sem que para isso atente contra vidas alheias, ocorre-me uma simples questão:

Porque insiste o Ser Humano em perseguir e marginalizar aqueles que, fugindo ao cinzento esbatido e enublado da maioria, teimam em ser felizes?

Aceito a homossexualidade com a mesma naturalidade como aceito a heterossexualidade. Não sinto que seja uma doença, muito menos que se transmita por convívio com eles (os anos de convívio não me contagiaram e fizeram-me apenas admirá-los ainda mais).

Admiro-os por lutarem pelo que querem e acredito que, se todos o fizessemos, o mundo seria um belo lugar para qualquer criança nascer e crescer!

Infelizmente para todos nós, insiste-se em catalogar uma minoria (que eu cada vez mais acredito ser maioria), em marginalizá-la e rotulá-la de doente, quando a verdadeira doença subsiste no facto de não se aceitar a procura e alcance de felicidade alheia...ou própria...

lingua portuguesa...

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Nós aqui no Fruto Xocolaty nem queriamos acreditar! A notícia caiu literalmente em cima de nós!
“ as telenovelas portuguesas vão passar no Brasil, mas com dobragem”.
È assim mesmo. A história e os actores são os mesmos, só que não falam, por cima da voz deles vão aparecer vozes de actores brasileiros. Ou seja, podemos deduzir que os brasileiros não entendem o português. Podemos deduzir também que o português foi uma língua que os antepassados deles ouviram um dia.
A culpa será dos sucessivos acordos ortográficos que Portugal tem negociado ( ou não )
com o Brasil??
Podemos continuar a dizer que no Brasil se fala Português??

O APETITE INSACIÁVEL DO TEMPO

Regressamos sempre aos velhos lugares aonde amámos a vida. E só então compreendemos que não voltarão jamais todas as coisas que nos foram queridas.
O amor é simples e o tempo devora as coisas simples.

José Eduardo Agualusa, "O Ano em que Zumbi Tomou o Rio"

Carpe diem

19 janeiro 2004

soneto

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Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês – pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

( Sophia de Mello Breyner Andresen )
( in OBRA POÉTICA)

18 janeiro 2004

Notícias Fresquinhas

A redacção do Frutó Xocolaty apurou, junto de fontes seguras e anónimas que Cherne Barroso e o seu governo Kamikase contrataram o melhor mestre de marketing e imagem a nível mundial, já a pensar nas próximas eleições legislativas.

Apurámos também que o dito mestre em imagem política organizou um inquérito a nível nacional, por forma a definir a classificação dada pelos portugueses ao actual governo.

O resultado foi: Incompetentes, párias, filhos das avós, malandros, gatunos, ursos e sanguessugas.

Perante este inquérito arrasador, o mestre em imagem, contratado por Cherne Barroso, tomou uma atitude drástica de melhoria de imagem do actual governo. Perante o escândalo da coligação Kamikase de maioria, fundamentou a sua medida com estas palavras:

"- É melhor falarem mal de nós do que simplesmente não falarem!"

Perante tão forte argumentação, foi aceite por esmagadora maioria a seguinte campanha de melhoria de imagem de Cherne Barroso e demais Kamikases:

1º É vital para a imagem do governo um novo referendo sobre o Aborto;
2º Cherne Barroso mudou o nome para Aborto;
3º Será uma excelente oportunidade para uma campanha de marketing um referendo sobre o Aborto, com a única pergunta:

Qual a sua opinião sobre o Aborto?

Limitando-se as respostas à nova imagem de Cherne, perdão, Aborto Barroso:

a) Tem sido um bom primeiro-ministro.
b) Tem sido um primeiro-ministro ineficaz.
c) Nem sequer tem sido primeiro-ministro.

Acreditamos estar perante um excelente Marketing Brain e acreditamos, também, que nas novas eleições legislativas, Aborto Barroso vencerá com esmagadora maioria.

Tememos pela oposição e a sua incapacidade financeira para tais campanhas...

Humor


Gato e Gata, Laerte

Hoje...

...Despi-me de mim e mergulhei em ti!

17 janeiro 2004

Publicações do Leitor

A minha amiga (chamemos-lhe Cereja) enviou-nos um texto, que não resisto em publicar, pela sensibilidade expressa e pela verdade tão comum a todos nós:

"
Sim um dia...

Quando paramos para reflectir nas nossas vivências sonhamos sempre que um dia será melhor.

Às vezes parece que não acreditamos na realidade que vivemos, nas dificuldades, nas tristezas, na angústia e no desejo que cada um tem em acordar no dia seguinte e pensar: “Hoje será melhor!”

Encaramos a nossa realidade, o sufoco das despesas que nos batem à porta, o desespero de não termos o pão na mesa, o telefonema que não chega para nos tirar desta aflição, mas, ainda assim... pensar: "É amanhã!"

Será que esse dia vai demorar muito a encontrar-nos?
Será que um dia Ele vai lembrar-se de nós?
Será que as nossas vidas vão cruzar-se com a Felicidade tão desejada?
Será, será será...

Mas, se tivermos a sorte de nos cruzarmos com ela, não podemos ter medo de chorar e enfrentá-la, pois é sinal de que a Vida nos está a SORRIR."

Eu sei que...

... tu pensas que eu penso aquilo que tu pensas que eu penso e que ambos pensamos!

Mas... penso mesmo?

15 janeiro 2004

Sahara, meu Pai



Nasceu mais uma vez o Sol e o Imã recorda que Allah nos protege, que Allah nos ama, que Ele é Pai.

Dirijo-me à janela para te ver, grande Sahara! Enquanto as orações são cantadas, rompendo o silêncio da manhã, colorindo o nascer do Sol, eu suplico-te, grande Sahara, notícias do meu Rûzgâr.

Rûzgâr, o guerreiro com nome de Vento. Rûzgâr, o Tuaregue que mora no meu coração para sempre. Enquanto o Imã pede a Allah Amor, eu peço-te, grande Sahara, que me tragas Rûzgâr com o vento, que me embales com recordações da sua voz. Deserto Pai, devolve-me o coração que perdi um dia na tua imensa areia.

Grande Sahara devolve-me o meu Amor, aquele a quem a vida foi ceifada e que dorme nas tuas areias. Devolve-me o teu filho Vento!

Mas nem o oceano de todas as minhas lágrimas te comove, imenso Sahara. A dor que carrego não é suficiente para me devolver aquele que foi um dia para o eterno oásis, aquele que partiu para se juntar ao deserto imenso, deixando este coração vazio.

Ah, Allah se me ouvisses como ouves o Imã, cantando a tua glória, na sua janela, no silêncio do mundo. Ah, Allah se fosses Deus de todos e não apenas deles, talvez ouvisses estas preces que todos os dias lanço ao deserto Pai, talvez sentisses a dor das minhas lágrimas, talvez notasses o meu vazio, talvez me aceitasses nesse Oásis com aquele que partiu.

Foram três anos de viagem pelo deserto, acompanhando a tribo que um dia me adoptou, seguindo o homem que me amou. Foram três anos em que, também eu, fui tua filha Grande Sahara. Percorri-te com o clã que me aceitou como um ser igual, como uma filha do deserto, sem terra nem nome. Foram tempos de liberdade caminhando pelas tuas dunas, amando-te e respeitando-te.

Os dias quentes, secos e inebriantes que nos obrigavam a andar, a caminhar em busca do oásis seguinte. A água que aprendi a respeitar e a usar. As noites geladas nas tendas improvisadas, onde o chá era servido quente ao som das vozes dos teus filhos, o povo Tuaregue. As danças que fazíamos, as músicas que tocávamos … em tua honra, grande Sahara. Os sons do Amor pelo deserto, por ti meu Pai. As orações por todas as manhãs de vida, por todas as noites de Amor que partilhei com Rûzgâr, o meu Vento.

Os momentos de Amor, a liberdade de ter-te como casa, o prazer de ter o imenso Sol, que aquece as tuas areias, como tecto… as memórias gravadas das tendas castanhas que se confundiam com as dunas, os interiores vermelhos e dourados… os tapetes, as almofadas, os lençóis, as cores e formas dos objectos que testemunharam o meu Amor, gravado para sempre na memória das tuas areias… cantado pelo vento que sopra em ti… ah, grande Sahara, pudesse eu ser areia em ti e acarinhada pelo vento, como fui por Rûzgâr, o Guerreiro Tuaregue. O cheiro das pessoas, do deserto… o brilho da tua areia sempre pura e cruel…Sahara és verdade e contradição, és Deus e areia, és Pai e morte.

Sahara, meu Pai, as saudades que eu tenho dos tempos de liberdade em que a caravana caminhava lentamente e as vozes da tribo se ouviam em uníssono, marcando o compasso da lenta marcha até ao paraíso seguinte. Sahara, meu Pai, poderás perdoar-me ter-te abandonado no dia em que a tribo foi dizimada e eu fui devolvida à cidade, pela cor da pele e não pela cor do coração? Sahara, meu Pai, poderás perdoar-me ter-te amaldiçoado no dia que me roubaram a verdadeira família, os meus irmãos de alma, no dia que assassinaram o meu Amor, numa guerra estúpida, feita em teu nome? Poderás um dia esquecer que amaldiçoei a tua inércia, quando me devolveram ao destino de ter nascido europeia e de ter de morrer no outro lado do Mediterrâneo? Sahara, meu Pai, o meu coração ainda te pertence. Está enterrado algures numa duna, para sempre. Vive num Oásis construído por Allah e não me pertence. É teu, grande Sahara, Pai do povo livre, Pai dos homens sem nação que insistem em percorrer-te de lés-a-lés, que insistem em amar-te, apesar de seres cruel.

Sahara, meu Pai…o meu coração pertence-te e está enterrado em ti, algures numa duna, das muitas que te formam… Sahara, meu Pai, devolve-me Rûzgâr, como um sopro de vento suave, no meu ouvido…

Sahara, meu Pai, não há Deus nem Allah… há um deserto imenso chamado Sahara… há um Oásis no meio desse deserto para os filhos que o amam e o protegem… Grande Sahara…meu Pai… rezo pelo dia que também eu possa voltar a percorrer-te como uma brisa de vento, como um grão de areia, nesse imenso Universo que és!



(Este conto foi escrito, como prometido, para comemorar o regresso da Peste Suína. Peste, espero que gostes!)