Chamei-lhe D. Elvira. Ela fez um ar autoritário e retorquiu: “Trata-me por Menina Elvira, filha. Todos me conhecem assim. Tempos houveram em que eu era a Mademoiselle Elvira, as portas se abriam e os chapéus se curvavam em vénias quando eu passava. Agora, restam-me as memórias dos tempos em que os homens se amontoavam à porta do meu camarim só para me verem de perto, as flores se tornavam insuportáveis pelos exagerados volumes acumulados e eu apenas pedia à vida banhos de espuma demorados, acompanhados por
champagne e uns momentos de solidão na minha casa da Ericeira”.
A Mlle. Elvira foi, em tempos, uma grande bailarina. 40 anos da sua vida foram passados em pontas, o seu corpo era a prova de que a gravidade nada mais é que algo a superar e a vencer. Com ela se comoveram homens e mulheres, quando o seu corpo se dobrava e ondulava num movimento elástico, como que desprovido de qualquer osso, ao som de Tchaikovsky e Mlle. era um lindo e belo cisne que agitava as asas e voava em direcção à liberdade.
Incorporou muitos bailados famosos e todos eles pareciam ter sido planeados para a Mademoiselle dançar. Viajou pelo mundo e pouco se demorou em Portugal. Diz-me que éramos e somos um País retrógrado e que, nos seus tempos, o Ballet não era visto como uma arte. As bailarinas eram etiquetadas como meninas da vida. Coristas, era o que lhes chamavam. “
Oh Mon Dieux, c'est triste. Portugal est triste…très triste!”, diz Mlle. Elvira com um toque de tragédia grega na voz, num excelente francês.
Mostrou-me várias fotografias de bailados…todas excelentes, todas testemunhando um corpo que tanto teimou, que conseguiu vencer as leis da gravidade. Lindos pés, excelentes posições…uns braços magros, longos, perfeitos. Seja em pontas, em descanso, ou no ar…Mademoiselle Elvira assumia na perfeição o nome de Diva!
Foi uma vida inteira a lutar…a moldar o corpo, a ir mais além…a dobrar mais um pouco, a saltar ainda mais alto e com mais graça, a experimentar mais expressões, a treinar e treinar dias inteiros. Começou em criança e terminou com 50 anos a vida dedicada à dança…ao Ballet.
Hoje Mlle. Elvira já ultrapassou os oitenta anos há muito, tem menos 25 centímetros de altura. O corpo outrora gracioso e seco, dobrou-se numa corcunda, os ossos não aguentaram a vida de esforço. Mantém o andar gracioso e altivo de Diva, de bailarina, mas os joanetes são visíveis. O corpo esconde a fabulosa Mlle. Elvira que outrora inspirou artistas. Os olhos grandes, redondos e negros lembram-me a Lua e fazem-me pensar o quanto terá vivido “La Mademoiselle”. As mãos que se mexem graciosamente e completam o que a boca conta, levam-me a sonhar com palcos, com passos de Ballet, com aplausos.
Menina Elvira, vive só, mas desenganem-se os que acham que está triste. Diz-me com um olhar profundo e triunfante: Foram muitos, filha. Foram tantos e nenhum deles mereceu a minha companhia, apenas porque o meu único amor se chamou e chama Ballet. Hoje estou aqui, na minha casa junto ao mar e acredita, tenho a vida tão cheia de histórias, tenho tanta emoção, tanta recordação que me sinto plena e rica. A casa partilho-a com as flores, os gatos, os cães e o mar. Dos homens guardo as prendas e as promessas estupidamente proferidas, da vida guardo a glória que Deus me ofereceu.
As dores que sinto no corpo, os ossos que insistem em dar de si, nada são… valem o esforço de ter lutado, ter conseguido ser a melhor, ter atingido a glória. Fui feliz, dançando e estou grata à vida por isso! Sou feliz apenas por ter sido apresentada ao Ballet.
(para a Maria Ana, ma petite grande ballerine)