Muitos olharão para o que está a acontecer em São Paulo como mais um daqueles episódios de violência a que o Brasil infelizmente há muito nos habituou. Desta vez, porém, todos os limites foram ultrapassados. A maior cidade da América do Sul é hoje um dos cenários apocalípticos que só se vêem no cinema ou na banda desenhada. É palco de uma violência organizada que tenta remeter o Estado de direito para uma trincheira, obrigando-o a ter de assumir uma espécie de luta corpo a corpo, com as mesmas armas e nos mesmos territórios.
São Paulo é a "Sin City" da realidade humana. Bandos de delinquentes organizados nas ruas e nas cadeias actuam com comando centralizado e aquilo a que uma especialista brasileira no estudo da criminalidade chamava ontem, na Folha de S. Paulo, "retórica política", semeando a morte e o caos na comunidade. O que ali se está a passar é uma luta pelo controlo do tráfico de droga a uma grande escala, uma afirmação de autoridade nas ruas e mesmo nas cadeias, uma forma de dizer a antigos cúmplices, alguns políticos e polícias, que o domínio das regras do jogo não lhes pertence em exclusivo.
Durante anos, as principais cidades brasileiras têm procurado fugir ao título de "cidade mais violenta do Brasil" transformando a segurança num campo de políticas avulsas e de cumplicidades perversas geradas pela ambição e pelo dinheiro, ou seja, campanhas políticas alimentadas pelo tráfico de droga, corpos policiais minados pela corrupção, sistema prisional dominado pelos próprios criminosos.
As autoridades políticas e policiais, em particular Rio de Janeiro e São Paulo, têm rivalizado na fuga a tal estatuto, provocando o crescimento de estados policiais federais que aniquilaram por completo a possibilidade de desenvolver políticas sérias de combate ao crime organizado, cada vez mais alimentado no imenso vácuo social gerado pela miséria. À violência das ruas contrapôs-se, há mais de duas décadas, com os resultados conhecidos, a violência do Estado, que se exprimiu em cadeias que são verdadeiros campos de concentração, execuções em plena rua por parte da polícia, confrontos nas favelas, mas cada vez mais no centro das cidades, banalização do uso de armas pesadas, algumas das quais só existem nos depósitos das Forças Armadas brasileiras. Foi com a divinização de um securitarismo primário que o Brasil chegou aqui e se transformou em tudo o que não devemos querer para nós.
(Editorial de hoje do Diário de notícias)
7 comentários:
Lamentável!!
Parabéns pela qualidade do blog!
Where did you find it? Interesting read »
best regards, nice info »
uma amiga minha viveu um filme de terror, imagina um prédio de quinze andares em que um por um dos andares foi assaltado por um grupo gigantesco de criminosos, ela teve com facas apontadas ao pescoço e a familia toda em risco de vida, é assim, com a pobreza não se brinca
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