
(vista da cidade da Maringá)
Chegaram os repovoadores da terra queimada", noticiava o Público, na passsada sexta-feira. Os "repovoadores" eram quatro famílias brasileiras, lote inicial das famílias de Maringá que é suposto irem repovoar e dar vida ao concelho de Vila de Rei, num programa inédito a que a presidente da câmara meteu ombros.
Voltando ao início da conversa: que tem a grande cidade de Maringá (500 mil habitantes, no interior do estado do Paraná, a sul do de São Paulo) a ver com o pequeno concelho de Vila de Rei (3250 pessoas) e em decréscimo demográfico e económico? Algo de muito relevante. Nas décadas de 40 e de 50, quando a pobreza dos portugueses levava muitos à aventura da emigração, muitos habitantes de Vila de Rei partiram para aquela cidade brasileira, vestidos quase só com o sonho de uma vida melhor. Lá eles se estabeleceram, lá prosperaram, lá criaram riqueza para si e para os da terra. Trabalharam duro, a maior parte deles, foram empreendedores - algo de que muitos portugueses do final do século passado e do início deste se esqueceram.
Por isso, os brasileiros de Maringá vêm "repovoar" - por geminação de raiz histórica entre os dois concelhos - Vila de Rei. As razões que levaram os portugueses a emigrar, para o Brasil, para os EUA, para a Venezuela, para França e Alemanha, por todo o século XX, felizmente desapareceram. Mas também desapareceu a vontade férrea de tentar a vida onde ela parece possível, de suportar a dor e a dureza da existência em busca de futuro. Não há jovens e outros menos jovens desempregados portugueses que queiram ir para Vila de Rei. É longe do litoral povoado, é incómodo para os sonhos de consumo fácil, e, em muitos casos, o subsídio de desemprego conduz a uma vida apertada, mas sem esforço.
Para os brasileiros de Maringá, o esforço é o sonho. De uma vida melhor, da Europa, da segurança, da possibilidade de aforrar cem euros por mês, que no Brasil é quase um salário mínimo. Eles pensam e fazem exactamente o que pensava e fazia o emigrante português de sempre. Que, se necessário, o futuro se conquista a pulso. Com mais ou menos auto-estradas, mais ou menos acessibilidades, os portugueses não querem "sofrimento". Os professores que, ao abrigo de programas de apoio e de incentivo profissional, concorriam aos postos vagos, por exemplo, na Madeira e nos Açores, iam só quase porque adicionavam etapas de efectivação. Uma boa parte deles passava a vida no Continente, com "baixas médicas", deixando os alunos tempos e tempos sem aulas, porque a vida longe de Lisboa e do Porto não era tão formosa. Até que os Governos Regionais decidiram acabar com a brincadeira.
Se os brasileiros - que são gente nossa, mesmo com diferenças, falam a nossa língua e desejam trabalhar - quiserem "repovoar" o nosso interior e se essas experiências foram efectivas, porque não? Nós fizemos muitas cidades brasileiras, povoámos muita terra através do mundo, fizemos das Terras de Vera Cruz o Brasil, porque não ajudarem-nos eles agora, com conta, peso e medida, a refazer o nosso país? A crescer demográfica e economicamente (os imigrantes já contribuem com 7% do PIB nacional) e a rejuvenescer a população?
(Artigo de José Manuel Barroso no DN de hoje)
1 comentários:
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