31 Janeiro 2004

A minha identidade...

...foi descoberta!

Após meses de profundo mistério, de nicknames altamente calóricos... fui fotografada por este Paparazzi, de nome Good Savage!

Assumo! Eu assumo! Chamo-me Maria Madalena Dietrich! Não estão a ver quem é, pois não? Pois, nos meus remotos tempos de juventude, quando o Glamour era o meu nome, as telas de cinema a minha casa, a moda me imitava, os homens desmaiavam com a minha passagem, a minha aparição ofuscava os mais desprevenidos, chamavam-me... Marlene Dietrich!

Hoje, guardo na memória as luzes do estrelato, os amores perfeitos e dedico-me a fazer sorrisos na blogosfera!

I am Marlene Dietrich - The Blogosphere Diva and .... Divã para os casos mais complicados, em que nem o Prozac ajuda...


No entanto, lembro-vos minhas queridas de algo que disse às vossas avós e que elas se esqueceram:

"A man would prefer to come home to an unmade bed and a happy woman than to a neatly made bed and an angry woman."

Que é como quem diz, acima de tudo sejam felizes!

30 Janeiro 2004

palavras para quê...

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O grupo voltava do funeral. As circunstâncias requeriam rostos a condizer. De súbito o repórter daquele canal português abeira-se do Sr. Secretário de Estado do Desporto e pede-lhe umas palavritas. O homem não se fez rogado e disse qualquer coisa do género: - “ Este jogador era um orgulho para a selecção do seu país, a Turquia. Aqui alguém lhe deve ter dado uma grande cotovelada e o homem acordou e rectificou: desculpem queria dizer a Hungria!.

Coitado foi convidado pelo Benfica para ir ao funeral e nem sabia em que país tinha estado.

As melhoras sr. Secretário de estado.

Post Anti-Stress

E porque hoje é SEXta-Feira; e porque hoje é o vosso último dia de trabalho e o último de desemprego para mim; e porque a semana vai acabar; e porque as vossas famílias têm saudades vossas; e porque me apetece!..e porque, porque sim!

Este é um post dedicado ao combate ao stress! Usem os comentários e descarreguem as energias negativas que vos atormentam! Vamos lá a libertar as frustrações neste post! Quero-vos ao final do dia alegres e bem-dispostos! Afinal hoje é Sexta-Feira!

Força!

O Desporto Radical de Dar Banho a um Gato

Meu amigo, desejo, com toda a sinceridade, que o seu internamento no Hospital tenha corrido bem, após a prática da última aula (Desporto Radical de Medicar um Gato).

Agora, que está praticamente bom, podemos passar à segunda lição: Dar Banho a um gato. Recordo-o, mais uma vez, que este é um desporto radical que envolve ferimentos ligeiros, graves ou inclusive a morte do praticante. Mas tenha calma e coragem. A adrenalina proporcionada por um desporto radical vale qualquer coisa na vida.

Em primeiro lugar, aconselhamos vivamente o uso da banheira para banhar a fera. Em segundo lugar, não lhe podemos dizer qual a indumentária mais correcta para este tipo de desportos, uma vez que cada gato tem a sua personalidade própria. Se estivermos perante um felino rebelde, altruísta e maníaco-depressivo, tanto pode ser aconselhado o uso de luvas grossas e bastante forradas, como não usar nada. Por isso, vamos tentar ensinar-lhe o método simples, tendo em consideração a árdua luta psicológica que qualquer desporto radical, envolvendo gatos, engloba.

Respire fundo. Acenda um incenso de Jasmim pela casa. Coloque o concerto para violino de Tchaikovsky a tocar bem alto. Relaxe. Desiniba-se e liberte-se de pensamentos impuros. Qualquer banho de gato é somente uma luta pelo poder da mente. Ganha a personalidade mais forte, a mente mais ágil. O violino já começou a tocar? Repare que o seu gato está relaxado. Repare como ele ouve o som do violino e se deixa seduzir pela melodia. O seu gato, neste momento, sonha que está num lindo jardim, cercado por deliciosos passarinhos que chilreiam. Deixe-o sonhar.

Agora dirija-se, de forma descontraída e relaxada, à casa-de-banho. Coloque no chão uma toalha de banho grande (aconselhamos a medida de cinco vezes maior que o gato). Retire de cima das prateleiras qualquer objecto cortante ou quebrável. Feche a banheira e deixe correr água tépida. Basta encher vinte centímetros de banheira. Entretanto, vista-se com roupa velha e confortável. Prepare-se para a deitar fora, após este banho.

Sente-se na sanita e leia um livro. O seu gato já veio ter consigo, não foi? Esses sacaninhas gostam de nos invadir os momentos de privacidade mais íntima, não é? Pois, pois… Não faça caso. Agora levante-se e puxe o autoclismo. Represente e nunca se esqueça que o segredo da arte dramática está na descontracção do actor, na espontaneidade implícita! O acto de puxar autoclismo e fechar porta da casa-de-banho não deve durar mais que cinco segundos, correndo o risco da fera fugir do seu alcance. Não resultou? Então corra atrás da sua amostra de tigre pela casa. Eu aguardo! Já está? Tenho de lhe dizer que…peço desculpa mas tem de ser… essa ginástica anda muito mal! O seu gato está em muito melhor forma! Corra, mexa-se, salte, deixe-o entre a espada e a parede e apanhe-o! Já está? Pronto…vamos lá então de fera em punho para a casa-de-banho! Tem mais gatos? Bem, nesse caso, eu aguardo que os prenda a todos na casa-de-banho. Nem pense em dar banho a um deles com os outros soltos! Nunca mais os vê…

Está a selva toda fechada na casa-de-banho? Então pegue no gato mais calmo, para servir de exemplo aos outros todos! Esse será o gato teste…o gato cobaia da nossa aula radical!

Pegue nele ao colo, falando-lhe ao ouvido com voz doce e palavras meigas. Ao mesmo tempo faça-lhe festinhas. Diga-lhe: “Vá lá, tem calma. Vou pôr-te bonito, lavadinho. Vais ser o gato mais bonito do mundo”. Note que estas feras condensadas são extremamente vaidosas. Qualquer conversa usando a frase “Vais ser o gato mais bonito do mundo” faz o felino acalmar e repensar a atitude.

Agora coloque-o de quatro, em pé, na banheira. Deixe-o sentir a água a entrar no pêlo. Vá molhando o lombo do animal aos poucos e continue a falar com ele ao som dos violinos do Tchaikovsky. O quê? Parou de tocar? Paciência! Agora não há nada a fazer. Não se larga um gato numa altura destas de forma alguma! Mas que lhe sirva de exemplo! Não o volte a fazer nunca! Continuando…

Massaje-o com o champô especial pêlo fofo. Deixe o champô actuar. Esperamos mais cinco minutos. Já passou! Retire o champô com o chuveiro suave e delicadamente. Prenda bem o gato. Cuidado com as garras nos braços, nos olhos, nas mãos, nas pernas… Já está?

Pegue no gato, esprema-o de forma delicada e coloque-o na toalha. Enrole-o tipo chouriço e faça-lhe festinhas. Entretanto os outros já perceberam que se aproxima o momento deles. Não se preocupe com isso agora. Seque o gatinho muito bem. Neste momento ele é um ser frágil, doce, carente. Aproveite este momento para lhe cortar as unhas, matar eventuais pulgas, etc.

Pode usar os passos anteriores para as próximas feras! Se tiver apenas um gato, desloque-se até ao sofá, acenda a televisão e coloque o gato no seu colo, ainda embrulhado, em posição de bebé. Faça-lhe festinhas e diga-lhe com voz doce e delicada: “Estás com um pêlo lindo, brilhante, sedoso e macio! Cheiras tão bem! És um gatinho lindo!” Ele olha para si com olhos de raiva? Amargurado? Não se incomode, continue a usar estas palavras. Isso passa-lhe!

Se conseguiu terminar esta lição sem quaisquer tipos de ferimentos, considere-se licenciado em Desportos Radicais Felinos. Se, infelizmente, por qualquer motivo alheio à professora, está a ser transportado para a ambulância e vai novamente para o Hospital, tenha calma. Tudo se resolve na vida com calma e … um gato é um gato! Um ser superior e demasiado inteligente para o comum dos humanos!

29 Janeiro 2004

Felicidade...

...É poder partilhar contigo aquele momento em que os nossos lábios se tocam, os nossos corpos se unem, o tempo pára e a vida flutua ...

... num acto de Amor...

28 Janeiro 2004

Humor

Adorei esta anedota da Eduarda:

«E sabiam que um erro de interpretação levou Pinto da Costa a comprar seis mil bilhetes para o festival de música Rock in Rio, convencido de que se tratava de uma sessão de apedrejamento público a Rui Rio, presidente da Câmara Municipal do Porto. A confusão reside na tradução literal de Rock in Rio, que é "pedra no rio". O erro também se deveu ao facto de Pinto da Costa não ter conseguido obter a opinião da sua habitual conselheira para assuntos mediáticos, Maria Elisa, que estava incontactável em Londres, onde exerce actualmente funções de adida de imprensa na embaixada portuguesa. Foi a própria organização do Rock in Rio que percebeu que alguma coisa estava errada quando receberam o telefonema de um funcionário do clube perguntando "quantos calhaus é que cada pessoa pode levar para o recinto". »

Não consigo parar de rir! Eduarda espero que não te importes da anedota emprestada. Eu sou assim, um pouco abusadora...

Bloco de Notas da "Melancia"

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Não me posso esquecer de deixar o televisor desligado logo à noite. Vão dar directos do funeral do jogador húngaro. Não quero ver. Basta!

Tenho também de não me esquecer de perguntar aqui na redacção se elas sabem por que razão o Sr. Ministro do Trabalho e da Segurança Social foi ao funeral.

E já agora tenho de não me esquecer de dizer à Bananas que a ministra está na Assembleia da República a tentar explicar onde estão os descontos dos funcionários.

Devo também tentar saber se o Sr. Ministro do Trabalho e da Segurança Social irá à Madeira amanhã, 5ª feira, para assistir ao funeral do funcionário do Nacional da Madeira que morreu em circunstâncias semelhantes ao do jogador do Benfica. Morreu quando estava a conversar com colegas e de súbito caíu no chão. Chamava-se Vigílio Brito tinha 44 anos e deixou 3 filhos menores. O funeral será em Câmara de Lobos.

o baú da vida...

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O inesperado também pode alterar um dia cinzento, que parecia ter nascido só para me deixar a vida também em tons de cinza. Ligo o rádio e sem perceber como, oiço uma frequência que já não me era quotidiana: O Rádio Clube Português. Havia desaparecido das ondas hertezianas e eu julgava-a morta para sempre. Mas não, ali está de novo e cheia de força. E de espanto em espanto oiço uma canção que fez parte do meu culto pessoal pois juntava um cantor e um poeta que eu muito amava. Eis que oiço de ouvidos encantados a canção ”Cavalo à Solta” . Durante aqueles breves minutos a voz do Fernando Tordo com o vigor que só ele dava às palavras escritas pelo Ary dos Santos: Minha laranja amarga e doce, meu poema... e eu que não cantava há tanto tempo!!!E eu que não ouvia a palavra ternura cantada há tanto tempo!!!

E lá do fundo dos arquivos das minhas emoções eis que me chega aos ouvidos as palavras do poeta naquela voz ( voz não, vozeirão, trovão) que só ele tinha.

Serei tudo o que disserem
Por inveja ou negação:
Cabeçudo dromedário
Fogueira de exibição
Teorema corolário
Poema de mão em mão
Lãzudo publicitário
Malabarista cabrão.
Serei tudo o que quiserem.
Poeta castrado, não!

Voltei a sentir que a vida é um livro que se escreve todos os dias e há capítulos que não dependem só de nós, pois o inesperado aí está. A música os poetas e os cantores daquele tempo ficaram gravados para sempre dentro de muitos de nós.

Obrigada Rádio Clube Português.

Ministério da Justiça - Capítulo II

(versão português popular por Frutó Xocolaty Produções, S.A.)

Afinal a Celeste dos cabelos ripados está na moda. Na moda dos penteados das tias e na moda de fugir à Segurança Social.

Celeste querida, quando for grande vou dizer com orgulho: Sou esta beleza de mulher, graças a esse ícone feminino que um dia se chamou Celeste Cardona!

Ministério da Justiça...

... no banco dos réus!

Agora sim! Agora é que as coisas se começam a compor! Ora, vamos lá ver isto!

O Miinistério da Justiça praticou um crime, condenável com pena de prisão. Agora pergunto eu:

- Vamos prender quem? A Ministra? O governo todo? Os portugueses que os elegeram? As fotocopiadoras? Os edifícios do Ministério? Os seguranças da portaria? A secretária do Sr. Dr.? As lapiseiras e calculadoras que fizeram greve?

Ando intrigada com isto! Prende-se quem, afinal? A Ministra demite-se? O governo faz eleições antecipadas?

Sigo esta novela com a mesma dedicação com que a maioria dos portugueses segue os "Morangos com Açucar"! Mas eu tenho melhores gostos, pois isto sim, é uma novela da vida real... à corrupta e à portuguesa...

27 Janeiro 2004

pensamento de hoje

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conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente como nós, e que embora distante, está perto em espírito, eis o que faz da Terra um jardim habitado.

(Goethe)

Miklos Fehér II

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Eu apenas me debruço sobre esta morte para lançar a seguinte questão:

O Sr. Ministro da Saúde veio à televisão falar dos serviços prestados pela ambulância, pelos bombeiros e respectivo Hospital de Guimarães.

Ó Sr. Ministro ainda estou à espera que venha à televisão, também em directo, explicar a morte da Ana Raquel!

Já não se lembra? Eu recordo-o, afinal essa é a minha função! Foi uma morte não filmada de uma menina de 10 anos no Hospital Amadora-Sintra. Ah pois, dentro de um edifício do Estado e pelas mãos de médicos pagos pelo Estado... tudo isto dentro das suas competências!

Não se incomode que eu aguardo sentada!

Não me parece que os portugueses precisem de explicação para uma morte explorada até à exaustão pelos media. Agora a Ana Raquel, Sr. Ministro...a Ana Raquel tinha 10 anos e morreu num hospital público...isso não lhe tira o sono, pois não?

Miklos Fehér

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Chovia em Guimarães no Domingo à noite. Eu não estava a ver o jogo, o futebol não me interessa. Mas à minha volta comentava-se o jogo. De súbito olhei para o televisor e vi um rapaz a sorrir, belo, jovem, de cabelos louros molhados pela chuva. Depois voltou-se de costas, parecia que se queria curvar para a frente, muito lentamente, e sem se voltar caiu para trás em total desamparo, batendo com a cabeça no relvado. Fiquei presa àquela imagem. Já vi muitas encenações da morte no teatro e no cinema, mas nem por isso estou mais preparada para enfrentar a brutalidade do real. Quando vi em directo aquele rapaz, aos 24 anos, dobrar-se, cair, a cabeça a ressaltar no relvado, toda a fragilidade de vida se impôs aos meus olhos. De repente nada mais fazia sentido, o jogo perdeu todo o interesse, até para os adeptos que estavam na sala comigo, nem o jogo nem as rivalidades desportivas importavam.

E assim de repente aquele homem caído na relva passou a existir para mim. Passei a saber que era húngaro, que ia casar com a sua compatriota Adriene e que com o que ganhava em Portugal comprava casas no seu país para alugar a jovens estudantes a preços acessíveis.

Recordarei sempre o sorriso irónico e terrivelmente belo com que Miklos Fehér encarou a morte em Guimarães. Morreu em directo.

25 Janeiro 2004

Alma de Mulher

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Luísa entrou, dirigiu-se ao balcão e disse: “Tenho consulta marcada com o Dr. Edmundo. Sou Luísa Gomes!” A menina do consultório confirmou o nome na agenda e pediu-lhe para aguardar sentada. Informou-a que as consultas estavam atrasadas.

Atravessou a sala de espera com bambolear de mulher bonita e segura de si e sentou-se. Cruzou as pernas e avaliou os restantes companheiros de espera. Todos a olhavam e, possivelmente, todos se interrogavam sobre o que estaria uma mulher jovem, elegante e bonita a fazer numa consulta de psiquiatria.

“Nem tudo o que parece é!” Pensou Luísa, soltando um sorriso de sarcasmo. “Nem tudo o que parece, é …!” Ali estava um metro e oitenta de mulher bonita, silhueta frágil, olhar vago mas inteligente, na sala de espera do Dr. Edmundo. Poderia ter seguido a carreira de modelo, não fosse… não fosse a vida ter-lhe feito sentir na pele que… nem tudo o que parece, é!

As esperas sempre a deixaram nervosa. As esperas são terríveis, pois fazem-nos pensar demasiado! Perdemos tempo à espera do que quer que seja e perdemos tempo de vida, esperando! Este tipo de pensamentos, antes da conversa com o psiquiatra, eram os piores, sobretudo porque a levavam a entrar na realidade sozinha. Nestas alturas, estremecia da cabeça aos pés, quando a realidade lhe invadia os pensamentos como um prego espetado na parede demasiado depressa, como uma flecha certeira no alvo.

Luísa avançou no pensamento e entrou na realidade sozinha. Lembrou-se que esta era a décima consulta com o psiquiatra e resolveu ponderar a sua evolução. Pensou nas conversas que já tinham tido, nos medos que já tinham explorado, nos sonhos que tinha revelado. Tudo se resumia numa coisa, numa só frase: Ser mulher! Era o maior sonho e, também, o maior pesadelo de Luísa!

Concluiu que, em dez horas de terapia, ainda não tinha conseguido explicar ao médico porque queria ser mulher. Talvez isto fosse o início de tudo! No entanto, é difícil explicar a um homem os motivos que levam outro a querer ser mulher. Mas… e se mudasse para uma médica, seria mais fácil? Entenderá uma mulher, que sofre na pele a discriminação sexual desde que nasceu, o que leva um homem a optar pelo sexo “fraco”? Decididamente, não! São mais compreensíveis, mais abertas, mas não!

Poderá haver uma explicação lógica para tudo na vida? …Para todas as opções que tomamos? O Jaime decidiu ser mulher, porque desde que nasceu sempre se sentiu como tal! Desde que se lembra de existir, sempre houve uma Luísa dentro de si, em cada pensamento, em cada gesto, em cada palavra! Ser mulher num corpo de homem é o pior castigo que Deus nos pode dar! Sofrer duplamente na pele a discriminação social e sexual é a pior de todas as dores!

Ser o que não se é, mas é… ser o que se é por dentro e ser o que se é por fora… sem se querer ser… e, sobretudo, querer ser o que se quer, independentemente dos outros…é muito cruel! É difícil!

“Talvez a solução para isto tudo não esteja no médico! Talvez nem esteja escrita em lado nenhum, nem hajam palavras em nenhum vocabulário no mundo para o descrever! Talvez esteja em mim, dentro do meu coração, do meu Ser e no amor que tenho à vida, a mim própria! Sim, é isso! Ninguém me aceita, enquanto eu própria não me aceitar como mulher! Enquanto eu não for feliz!”

Levantou-se, atravessou a sala e dirigiu-se ao balcão. Disse à menina com um sorriso de alívio na cara: “Informe o Dr., por favor, que não posso esperar! Estou atrasada para viver!”

Saiu e, quando a porta se fechou atrás de si, pensou: “Ser mulher é isto! É uma prenda envenenada e doce! Ser mulher é carregar no corpo a origem da vida, mesmo que seja só a própria! Ser mulher é ser feliz, por viver e deixar viver!”

O que há dentro da mala de Natália Verbeck?

Pergunta o curioso telespectador e o leitor deste blog...

Pois bem, eu digo-vos o que ela tem na mala! O mesmo que qualquer uma de nós!

Ora, desmistifiquemos este irritante anúncio da Evax! A mala da, ainda mais irritante e saltitona, Natália tem:

- Dois Evax fina e Segura com abas;

- Três O.Bs. para as situações mais delicadas;

- As chaves da casa dela, as chaves de casa da mãe, as chaves da casa da melhor amiga e as chaves do carro;

- Uma carteira com:
* Quatro cartões de crédito;
* Dois multibanco;
* Uns trocos para estacionar o carro;
* Uma fotografia do gato, outra do cão, outra da mãe, outra do pai, mais uma para cada irmão e...ahhhh...a fotografia do namorado novo para mostrar às amigas;
* 547 talões de compras e comprovativos de operações no multibanco.

- Um livro de cheques;

- Um batôn castanho, outro batôn rosa e um lip gloss para tornar a boca mais sexy nas alturas de conversas mais sérias;

- Um perfume;

- Um desodorizante;

- Uma embalagem de pastilhas elásticas;

- Uma embalagem de Trifene 200 e outra de Antigrippine;

- Uma escova para o cabelo;

- Dois telemóveis (cada um da sua rede), tendo um deles dois cartões;

- Pasta e escova de dentes, para depois das refeições, mais a indispensável embalagem de fio dental;

- Uns óculos de sol e outros para ler ao perto;

- Base, verniz das unhas, eyeliner e rimmel;

- Uma pinça e uma lima para as emergências;

- E o sempre indispensável pacote de lenços de papel.

É apenas isto que existe dentro da mala da Natália Verbeck! Tanto escândalo e tem uma mala com o mesmo conteúdo de todas nós!

Tsss Tsss

24 Janeiro 2004

Dúvidas Existenciais

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Hoje lavei a cabeça com o Champô Herbel Essence e não tive nenhum orgasmo.

Estou preocupada!

Das três, uma, duas, três ou nenhuma:

- O meu frasco de champô está estragado;
- A menina do anúncio usou Champô para cabelos normais e eu usei um regenerador;
- O problema está no facto de não ter usado a casa-de-banho de um avião.

Será que a Deco me pode ajudar a reclamar?

Que chatice pá...tanto dinheiro e nem um bocadinho de orgasmo...

23 Janeiro 2004

Querido João,

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Mais uma vez é Sexta-Feira e mais uma vez me telefonaste a dizer que vais chegar tarde, porque vais trabalhar durante a noite e depois vais jantar com os colegas.

Mais uma vez vais ter com ela, mais uma vez te vais deitar na minha cama com o cheiro dela, mais uma vez vais trazer no teu corpo o cheiro do sexo com ela! Mais uma vez, João.

No entanto, desta vez eu não vou estar em casa, deitada na cama à tua espera. Desta vez João, a casa vai estar vazia. Desisti de viver contigo. Desisti de usar uma aliança de um casamento que já não existe há muito. Desta vez João, podes voltar para a cama dela. Pouco me importa agora e pouco me importou nestes três anos de vida dupla que levaste.

Cansei-me de ser tua empregada. Desculpa, cansei-me de ser tua escrava. Hoje foi a última vez que cosi um par de meias teu, foi a última vez que fingi partilhar a mesma casa contigo. Ontem foi a última vez que me bateste!

Os miúdos estão em casa dos meus pais, até eu os poder levar comigo. O cão também lá está. Agradeço que não me procures e agradeço também que não me chantageies de novo. Não quero saber!

Estas são as últimas lágrimas que tenciono derramar pela porcaria de vida que tenho a teu lado. Este foi o último mês que abdiquei de um creme facial por uma grade de cervejas para ti!

Não me procures no trabalho! Despedi-me há dois meses e hoje foi o meu último dia lá. Vou para o estrangeiro. Vou emigrar para bem longe de ti e do inútil que te tornaste.

Não penses que estou magoada contigo, não te guardo rancor. Todos os minutos de violência que me proporcionaste, todas as nódoas negras que o meu corpo conheceu, todas as mentiras que me contaste, todos os peidos e arrotos que deste já não me chocam, já não os sinto. Posso, inclusive, garantir-te que todas as noites que estiveste com ela, foram, para mim, um alívio. Todas as horas, minutos, segundos que passaste longe de mim foram momentos abençoados. Foram momentos de reflexão, de crescimento interior. Foram dias em que procurei ajuda e em que planeei este divórcio, a fuga desta jaula em que o nosso casamento se tornou.

Algures no tempo, algures no desenrolar das nossas vidas, optámos por caminhos diferentes. Tu assumiste o papel de macho e eu fui obrigada a assumir o papel de vítima.

Tenho trinta e dois anos e uma década de vida passada ao lado de um homem que não me ama, que não me olha como a mulher que sou. Estou cansada de me anular por ti, com medo que te zangues, com medo das coisas que me dizes em público para me envergonhares, para me rebaixares.

Hoje João, quando leres esta carta, vais pensar que eu vou voltar porque tenho medo que fiques com as crianças. Não penses, pois tu não sabes pensar. Há três meses que estou a tratar do divórcio com um advogado e há três meses que tenho fotografias tuas… com ela! Tenho testemunhas e provas de todo o mal que me fizeste…a mim e aos meus filhos! Desta vez, estou preparada para a tua chantagem e para a guerra que tencionas montar!

Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida! Hoje é o primeiro dia de uma vida de Liberdade, longe de ti e do monstro que te tornaste!

Adeus, João!

Beijos,


Alice

P.S. – Está um tabuleiro em cima da cama com a tua roupa para passar a ferro. Leva-o à tua amiga, para ela se entreter!

Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes

1
Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.

2
Não te candidates, nem te demitas. Assiste.
Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira.
Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.

3
Tira as rodas ao peixe congelado,
mas sempre na tua mão.
Depois, faz um berreiro.
Quando tiveres bastante gente à tua volta,
descongela a posta e oferece um bocado a cada um.

4
Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre
um caixote com serradura à tua espera.
Pode haver. Se houver, melhor...
Esta deve ser a tua filosofia.

5
Tudo tem os seus trâmites, meu filho!
Não faças brincos de cerejas
sem te darem, primeiro, as orelhas.
Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.

6
Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que
te puseram em cima da cabeça?
Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.
É provável que te sintas logo muito melhor.
Sai, então, de baixo da pedra.

7
Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra.
Poderias atrapalhar os trabalhos.
Os de pedra sobre pedra, entenda-se.
Mas dá sempre um "Bom dia!" ao pessoal do estaleiro.
Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.

8
Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre
com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo
a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia.
Oxalá o consigas!

9
Tens um glorioso passado futurível,
mas não fiques de colher suspensa,
que a sopa arrefece.

10
Se tiveres de arranjar um nome para uma personagem
de tua criação, nunca escolhas o de Fradique Mendes.
A criação literária não frequenta o guarda-roupa,
muito menos quando a roupa tem gente dentro.

11
Resume todas estas sentenças delirantes numa única
sentença:
Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa.

Alexandre O'Neill "Poesias Completas"

Bom fim-de-semana!

22 Janeiro 2004

Xocolaty líquida...

.
Este vizinho derreteu-me...

Nota para Memória Futura nº 578,34512 e 3/4

Ai que eu estou tão aliviada!
Ai mas que alivio tão grande!

Finalmente os deficientes podem ter relações sexuais. A igreja reconheceu que eles também gostam.
Só foram precisos 21 séculos. Foram rápidos, sim senhor!

E agora serão precisos quantos séculos para o Vaticano se pronunciar sobre o pecado chamado Preservativo?

pensamento perfeito...

.
Aprendemos a amar não quando encontramos a pessoa perfeita mas quando conseguimos ver de maneira perfeita uma pessoa imperfeita.

A VÃ GLÓRIA DE RIMAR

De sílabas de letras de fonemas
se faz a escrita. Não se faz um verso.
Tem de correr no corpo dos poemas
o sangue das artérias do universo.

Cada palavra há-de ser um grito.
Um murmúrio um gemido uma erecção
que transporte do humano ao infinito
a dor o fogo a flor a vibração.

A Poesia é de mel ou de cicuta?
Quando um Poeta se interroga e escuta
ouve ternura luta espanto ou espasmo?

Ouve como quiser seja o que for
fazer poemas é escrever amor
e poesia o que tem de ser é orgasmo.

POESIA-ORGASMO, José Carlos Ary dos Santos

"O nome de Ary dos Santos diz-lhe alguma coisa?" perguntou o Diário de Notícias aos portugueses, em jeito de homenagem ao poeta no vigésimo aniversário da sua morte.
Triste mas previsivelmente, a maioria não sabia quem tinha sido Ary dos Santos.
No entanto, os portugueses sabem tudo sobre futebol - leem regularmente a Bola ou o Record; as portuguesas sabem tudo sobre casamentos e divórcios, traições e disfunções- leem regularmente a Maria, a Holla e outras perversões.
Só não sabem quem foi Ary dos Santos.
Que falta nos tem feito o José Carlos!!!

21 Janeiro 2004

Os meus gatos

Hoje apetece-me escrever sobre este amor que dura praticamente desde que nasci. São vinte e nove anos de vida em que os gatos entram e saem da minha vida, de acordo verbal mostrando livre e plena vontade.

Foram muitos os gatos que amei e que partilharam a minha vida. Todos tiveram nomes. O meu primeiro casamento, que durou catorze anos, chamava-se Tareca. Conheci-a com sete anos e, na fase de criança rebelde e envolta em demasiados desgostos e preocupações para a idade, foi amor à primeira vista. Ela ia comigo ao supermercado, ela ia comigo brincar na rua, ia acampar para a praia e pulava atrás de mim na areia fugindo das ondas. Na adolescência e nos fins-de-semana passados com o namorado, a Tareca esperava pacientemente o meu regresso, deitada na minha cama, virada para a porta da rua, fazendo intervalos rápidos para comer e usar a casa-de-banho. Esperava por mim, como uma mãe espera pela filha que tarda em regressar e quando eu voltava era uma festa de miados e beijinhos.

A Tareca percorreu a minha infância, adolescência e, quando comecei a viver sozinha, manteve-se comigo como fiel companheira. Um dia ganhou um quisto numa mama e foi uma questão de meses até ao momento da morte. Chorei, como teria chorado por uma irmã, por uma filha. Só entende quem passou por uma experiência destas. É difícil descrever. Mas, hoje, passados cinco anos ainda recordo a Tareca deitada na cama sem se conseguir mexer, olhando-me nos olhos, miando baixinho. Na última noite de vida ela chorou. Levantou-se, veio na minha direcção, deitou-se no meu colo e gemeu baixinho, olhando-me nos olhos... como se chorasse no momento da despedida. Foi uma dor muito grande decidir abatê-la, poupar-lhe aquela dor e foi uma dor muito maior, mas um alívio, quando ela me morreu nos braços a caminho do veterinário. A minha doce Tareca, a mais doce recordação de infância e adolescência.

Nos dias seguintes, entrar em casa e ouvir o silêncio era horrível. Fugia de casa, evitava dormir aqui, na austeridade do vazio. Abria a porta e faltava-me a minha companheira de vida, que me seguia para onde quer que fosse, me aquecia no Inverno, me lavava as mãos, me avisava de quem subia as escadas.

Um dia tomei a decisão de ter mais um gato. Pouco tempo depois foi-me oferecido um gato preto de olho verde com três meses. Era uma pulga eléctrica saltitante e a casa voltou a ter vida. Eu voltei a arranjar desculpas para vir para casa. Tinha quem me esperasse. Queria chamar-lhe Sebastião, mas fui proibida pela minha mãe, não fosse o outro Sebastião sentir-se ofendido por ter um gato homónimo. O meu seria Sebastião José de Carvalho e Mello, mas foi rejeitado na mesma.

No entanto, eu defendo que os gatos devem ter os nomes adequados à sua personalidade e sempre sonantes, pois felino nenhum tem personalidade passiva. Ficou Barbazul, o gato preto que se torna azul, com o brilho do pelo na luz! Barbazul, o pirata que coleccionava namoradas pelo mundo.

Mais tarde decidi que deveria haver uma namorada, pois essa foi a minha grande mágoa com a Tareca. Morreu virgem! Falei com a Ginja, mãe adoptiva de cinco gatos e adoptada por outros vinte das redondezas.

Veio duma viela, algures em Almada, a gata mais bonita que alguma vez vi. Pequenina, toda ela redondinha, parecia uma gata Lua. Castanha e riscas negras como um Tigre, arisca como um Felino com um grande “F”, meiga como uma menina órfã à procura de casa. Chamei-lhe Cleópatra, não só pelas riscas nos olhos, que lembram os olhos da homónima, mas também pelo alter-ego revelado em tenra idade e que a tornou na dona da casa. Cleópatra a imperatriz cá da casa. A gata de motor sempre “on”. Está sempre a ronronar e a olhar para mim!

No auge da felicidade conjugal felina, passados três anos da primeira entrada, lembrei-me de passear num Centro Comercial e de olhar para uma loja de animais. Vi um gato pardo, igual à Cleo, a pular dentro de uma gaiola, eléctrico, feliz. No fundo da gaiola estava uma bola de pêlo preto redonda. Olhei melhor e constatei tratar-se de outro gato. Estava doente, triste, cheio de ramelas nos olhos e no nariz. As pulgas já tinham pouco espaço livre para pular em cima dele e a barriga estava demasiado inchada pelos vermes que a habitavam. Conclusão: paguei dois mil escudos e lá veio o terceiro hóspede cá para casa. Foi uma faca no coração da Cleópatra, que não gostou de dividir o espaço com mais um felino. Foi uma alegria para o Barbazul, que descobriu a sua veia de mãe e foi o começo dos rios de dinheiro que já gastei em gatos e veterinário. Chamei-lhe Silvestre em homenagem ao gato que insiste em perseguir o irritante Piu-piu.

O doce e inocente Silvestre desapareceu não me lembro bem onde, em que lugar do tempo… dando lugar a uma fera preta, louca, vingativa, tarada por pernas, demoníaca. Estava claro que o nome tinha sido mal escolhido, pois o pobre Silvestre era um santo sempre enganado pelo pássaro irritante e eu tinha trazido cá para casa um demónio de quinze centímetros. Então surgiu a conjugação de duas palavras demónio e negro, ou seja Serafim (de anjo) e negro porque ele é preto como o carvão. Ficou Serafim! Foi educado pelo Barbazul e pela Cleópatra, respectivamente mãe e pai. A Cleópatra batia-lhe e procurava qualquer tipo de desculpa para um confronto directo, o Barbazul (como uma verdadeira mãe) protegia o menino, lavava-o, alimentava-o, ensinava-o a caçar (não sei como isto foi possível porque o Barbazul nunca caçou uma única mosca), entrava em batalhas ferozes com a Cleópatra. Enfim…esta casa transformou-se num apartamento de gatos, comandada por eles, com os seus problemas conjugais e familiares e habitada por mim, com a sua permissão.

Hoje, não imagino a minha vida sem estas criaturas que me tratam como uma igual, que enchem o espaço de vida, que ocupam o meu coração de carinho e que me fazem sentir uma pessoa especial. Mostram-me com todos os símbolos que existem na linguagem felina que, ser-se amado por um gato, é ser especial, é estar acima do comum dos mortais. Ser-se respeitado por um gato é motivo de orgulho para qualquer ser humano.

Hoje sei que se os homens amassem como os gatos, com sinceridade e pureza, não havia lugar para guerras no mundo, pois apesar das diferenças, existe sempre espaço para mais um, desde que se tenha consciência do território alheio.

Só posso agradecer às centenas de gatos que me passaram pela vida o terem partilhado o seu espaço comigo e só posso agradecer aos meus três bebés deixarem-me viver cá em casa. Os meus três bebés que pesam oito ou nove quilos cada um e que insistem em deitar-se todos em cima de mim ao mesmo tempo, esmagando-me contra qualquer superfície e lembrando-me que eu sou a humana deles.

Evocando um poeta

A Máquina Fotográfica

"É na câmara escura dos teus olhos
que se revela a água

água imagem
água nítida e fixa
água paisagem
boca nariz cabelos e cintura
terra sem nome
rosto sem figura
água móvel nos rios
parada nos retratos
água escorrida e pura
água viagem trânsito hiato.

Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
o tempo de onze meses de ordenado;
por isso, meu amor, viajo a nado
não por ser português mal empregado
mas por sofrer dos pés
e estar desidratado.

Chego. Mudo de fato. Calço a idade
que melhor quadra à minha solidão
e saio a procurar-te na cidade
contrastada violenta negativa
tu única sombra murmurada
única rua mal iluminada
única imagem desfocada e viva.

Moras aonde eu sei.
É na distância
onde chego de táxi.
Sou turista
com trinta e seis hipóteses no rolo;
venho ao teu miradoiro ver a vista
trago a minha tristeza a tiracolo.

Enquadro-te regulo-te disparo-te
revelo-te retoco-te repito-te
compro um frasco de tédio e um aparo
nas tuas costas ponho uma estampilha
e escrevo aos meus amigos que estão longe
charmant pays

the sun is shining
love.

Emendo-te rasuro-te preencho-te
assino-te destino-te comando-te
és o lugar concreto onde procuro
a noite de passagem o abrigo seguro
a hora de acordar que se diz ao porteiro
o tempo que não segue o tempo em que não duro
senão um dia inteiro.

Invento-te desbravo-te desvendo-te
surges letra por letra, película sonora,
do sendo à vogal do tema à consoante
sem presença no espaço sem diferença na hora.
És a rota da Índia o sarcasmo do vento
a cãibra do gajeiro o erro do sextante
o acaso a maré o mapa a descoberta
dum novo continente itinerante. "

José Carlos Ary dos Santos
Obra Poética


(a nossa pequena homenagem para assinalar a data do 20º aniversário do seu "passamento" )

aquilo que não pode ser explicado

.
entra por vezes na nossa vida e deixa-nos a pensar que se calhar existe um universo rejeitado por séculos de herança de cultura católica mas que nos faz pelo menos meditar.

Esta manhã ouvi na rádio, ainda dentro do carro e a caminho do trabalho, uma notícia no mínimo inquietante. Uma menina russa de 10 anos consegue ver o interior do corpo das pessoas. Os médicos que ao princípio não acreditaram, fizeram-lhe diversos exames e renderam-se. Ela consegue ser mais precisa nos diagnósticos que faz, que os aparelhos usados actualmente para esse mesmo fim. Ela vê e desenha o que vê com pormenores surpreendentes para a ciência.

Ao ouvir esta notícia pensei imediatamente numa personagem do José Saramago, a Blimunda do Memorial do Convento. A Blimunda antes de se levantar, tinha que comer pois isso anulava-lhe a capacidade de ver o interior das pessoas. A Blimunda sofria com o que via.

Também me recordei com saudade de algumas personagens femininas que passam pelos livros da Isabel Allende .Já há algum tempo que tenho o projecto de voltar a ler a Casa dos Espíritos e De Amor e Sombra. Quando os li a primeira vez fiquei deslumbrada pelas mulheres descritas e pela forma como as suas vidas se completam com um destino fantástico de visões e outras advinhações.

Imediatamente senti pena da menina russa. Que destino triste… conseguirá esquecer o que vê e ter uma vida normal de menina a entrar na adolescência?

20 Janeiro 2004

Histórias de Coragem

Em cada clique de rato pelos (cada vez mais numerosos) endereços da Blogosfera encontro uma surpresa. As surpresas que mais me agradam são histórias de coragem levadas com bom humor ou com frontalidade.

O assunto gay representa na Blogosfera uma boa percentagem de blogues que insistem em escrever histórias de coragem. Talvez por serem marginalizados, por um tabú estupido, eles são mais unidos, mais coesos e mais frontais. Falo das histórias dos homens e das mulheres que um dia decidiram assumir que não eram heterossexuais.

É sem sombra de dúvidas um acto de grande coragem. Admiro-os e faço questão de o dizer alto e escrever as vezes necessárias. Admiro-os pela coragem de serem o que são, pela força em viverem como querem e pelo objectivo de simplesmente lutarem para serem felizes, fugindo das frustrações impostas por uma sociedade demasiado cínica para aceitar a busca de felicidade com a naturalidade que ela merece.

No príncipio descobri o Casal Gay, depois descobriu-nos o Boss (cliente assíduo e acarinhado pelas autoras cá da casa), de seguida fomos adicionadas aos favoritos do Homossexual e hoje veio a Sara, cuja visita retribuí e me inspirou este post, ao ler o desabafo de alguém que luta, aliás, que insiste em ser feliz.

Num assunto que considero não haver discussão possível, uma vez que cada um tem o direito de escolher o rumo que quiser dar à sua vida, sem que para isso atente contra vidas alheias, ocorre-me uma simples questão:

Porque insiste o Ser Humano em perseguir e marginalizar aqueles que, fugindo ao cinzento esbatido e enublado da maioria, teimam em ser felizes?

Aceito a homossexualidade com a mesma naturalidade como aceito a heterossexualidade. Não sinto que seja uma doença, muito menos que se transmita por convívio com eles (os anos de convívio não me contagiaram e fizeram-me apenas admirá-los ainda mais).

Admiro-os por lutarem pelo que querem e acredito que, se todos o fizessemos, o mundo seria um belo lugar para qualquer criança nascer e crescer!

Infelizmente para todos nós, insiste-se em catalogar uma minoria (que eu cada vez mais acredito ser maioria), em marginalizá-la e rotulá-la de doente, quando a verdadeira doença subsiste no facto de não se aceitar a procura e alcance de felicidade alheia...ou própria...

lingua portuguesa...

.

Nós aqui no Fruto Xocolaty nem queriamos acreditar! A notícia caiu literalmente em cima de nós!
“ as telenovelas portuguesas vão passar no Brasil, mas com dobragem”.
È assim mesmo. A história e os actores são os mesmos, só que não falam, por cima da voz deles vão aparecer vozes de actores brasileiros. Ou seja, podemos deduzir que os brasileiros não entendem o português. Podemos deduzir também que o português foi uma língua que os antepassados deles ouviram um dia.
A culpa será dos sucessivos acordos ortográficos que Portugal tem negociado ( ou não )
com o Brasil??
Podemos continuar a dizer que no Brasil se fala Português??

O APETITE INSACIÁVEL DO TEMPO

Regressamos sempre aos velhos lugares aonde amámos a vida. E só então compreendemos que não voltarão jamais todas as coisas que nos foram queridas.
O amor é simples e o tempo devora as coisas simples.

José Eduardo Agualusa, "O Ano em que Zumbi Tomou o Rio"

Carpe diem

19 Janeiro 2004

soneto

.
Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês – pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

( Sophia de Mello Breyner Andresen )
( in OBRA POÉTICA)

18 Janeiro 2004

Notícias Fresquinhas

A redacção do Frutó Xocolaty apurou, junto de fontes seguras e anónimas que Cherne Barroso e o seu governo Kamikase contrataram o melhor mestre de marketing e imagem a nível mundial, já a pensar nas próximas eleições legislativas.

Apurámos também que o dito mestre em imagem política organizou um inquérito a nível nacional, por forma a definir a classificação dada pelos portugueses ao actual governo.

O resultado foi: Incompetentes, párias, filhos das avós, malandros, gatunos, ursos e sanguessugas.

Perante este inquérito arrasador, o mestre em imagem, contratado por Cherne Barroso, tomou uma atitude drástica de melhoria de imagem do actual governo. Perante o escândalo da coligação Kamikase de maioria, fundamentou a sua medida com estas palavras:

"- É melhor falarem mal de nós do que simplesmente não falarem!"

Perante tão forte argumentação, foi aceite por esmagadora maioria a seguinte campanha de melhoria de imagem de Cherne Barroso e demais Kamikases:

1º É vital para a imagem do governo um novo referendo sobre o Aborto;
2º Cherne Barroso mudou o nome para Aborto;
3º Será uma excelente oportunidade para uma campanha de marketing um referendo sobre o Aborto, com a única pergunta:

Qual a sua opinião sobre o Aborto?

Limitando-se as respostas à nova imagem de Cherne, perdão, Aborto Barroso:

a) Tem sido um bom primeiro-ministro.
b) Tem sido um primeiro-ministro ineficaz.
c) Nem sequer tem sido primeiro-ministro.

Acreditamos estar perante um excelente Marketing Brain e acreditamos, também, que nas novas eleições legislativas, Aborto Barroso vencerá com esmagadora maioria.

Tememos pela oposição e a sua incapacidade financeira para tais campanhas...

Humor


Gato e Gata, Laerte

Hoje...

...Despi-me de mim e mergulhei em ti!

17 Janeiro 2004

Publicações do Leitor

A minha amiga (chamemos-lhe Cereja) enviou-nos um texto, que não resisto em publicar, pela sensibilidade expressa e pela verdade tão comum a todos nós:

"
Sim um dia...

Quando paramos para reflectir nas nossas vivências sonhamos sempre que um dia será melhor.

Às vezes parece que não acreditamos na realidade que vivemos, nas dificuldades, nas tristezas, na angústia e no desejo que cada um tem em acordar no dia seguinte e pensar: “Hoje será melhor!”

Encaramos a nossa realidade, o sufoco das despesas que nos batem à porta, o desespero de não termos o pão na mesa, o telefonema que não chega para nos tirar desta aflição, mas, ainda assim... pensar: "É amanhã!"

Será que esse dia vai demorar muito a encontrar-nos?
Será que um dia Ele vai lembrar-se de nós?
Será que as nossas vidas vão cruzar-se com a Felicidade tão desejada?
Será, será será...

Mas, se tivermos a sorte de nos cruzarmos com ela, não podemos ter medo de chorar e enfrentá-la, pois é sinal de que a Vida nos está a SORRIR."

Eu sei que...

... tu pensas que eu penso aquilo que tu pensas que eu penso e que ambos pensamos!

Mas... penso mesmo?

15 Janeiro 2004

Sahara, meu Pai



Nasceu mais uma vez o Sol e o Imã recorda que Allah nos protege, que Allah nos ama, que Ele é Pai.

Dirijo-me à janela para te ver, grande Sahara! Enquanto as orações são cantadas, rompendo o silêncio da manhã, colorindo o nascer do Sol, eu suplico-te, grande Sahara, notícias do meu Rûzgâr.

Rûzgâr, o guerreiro com nome de Vento. Rûzgâr, o Tuaregue que mora no meu coração para sempre. Enquanto o Imã pede a Allah Amor, eu peço-te, grande Sahara, que me tragas Rûzgâr com o vento, que me embales com recordações da sua voz. Deserto Pai, devolve-me o coração que perdi um dia na tua imensa areia.

Grande Sahara devolve-me o meu Amor, aquele a quem a vida foi ceifada e que dorme nas tuas areias. Devolve-me o teu filho Vento!

Mas nem o oceano de todas as minhas lágrimas te comove, imenso Sahara. A dor que carrego não é suficiente para me devolver aquele que foi um dia para o eterno oásis, aquele que partiu para se juntar ao deserto imenso, deixando este coração vazio.

Ah, Allah se me ouvisses como ouves o Imã, cantando a tua glória, na sua janela, no silêncio do mundo. Ah, Allah se fosses Deus de todos e não apenas deles, talvez ouvisses estas preces que todos os dias lanço ao deserto Pai, talvez sentisses a dor das minhas lágrimas, talvez notasses o meu vazio, talvez me aceitasses nesse Oásis com aquele que partiu.

Foram três anos de viagem pelo deserto, acompanhando a tribo que um dia me adoptou, seguindo o homem que me amou. Foram três anos em que, também eu, fui tua filha Grande Sahara. Percorri-te com o clã que me aceitou como um ser igual, como uma filha do deserto, sem terra nem nome. Foram tempos de liberdade caminhando pelas tuas dunas, amando-te e respeitando-te.

Os dias quentes, secos e inebriantes que nos obrigavam a andar, a caminhar em busca do oásis seguinte. A água que aprendi a respeitar e a usar. As noites geladas nas tendas improvisadas, onde o chá era servido quente ao som das vozes dos teus filhos, o povo Tuaregue. As danças que fazíamos, as músicas que tocávamos … em tua honra, grande Sahara. Os sons do Amor pelo deserto, por ti meu Pai. As orações por todas as manhãs de vida, por todas as noites de Amor que partilhei com Rûzgâr, o meu Vento.

Os momentos de Amor, a liberdade de ter-te como casa, o prazer de ter o imenso Sol, que aquece as tuas areias, como tecto… as memórias gravadas das tendas castanhas que se confundiam com as dunas, os interiores vermelhos e dourados… os tapetes, as almofadas, os lençóis, as cores e formas dos objectos que testemunharam o meu Amor, gravado para sempre na memória das tuas areias… cantado pelo vento que sopra em ti… ah, grande Sahara, pudesse eu ser areia em ti e acarinhada pelo vento, como fui por Rûzgâr, o Guerreiro Tuaregue. O cheiro das pessoas, do deserto… o brilho da tua areia sempre pura e cruel…Sahara és verdade e contradição, és Deus e areia, és Pai e morte.

Sahara, meu Pai, as saudades que eu tenho dos tempos de liberdade em que a caravana caminhava lentamente e as vozes da tribo se ouviam em uníssono, marcando o compasso da lenta marcha até ao paraíso seguinte. Sahara, meu Pai, poderás perdoar-me ter-te abandonado no dia em que a tribo foi dizimada e eu fui devolvida à cidade, pela cor da pele e não pela cor do coração? Sahara, meu Pai, poderás perdoar-me ter-te amaldiçoado no dia que me roubaram a verdadeira família, os meus irmãos de alma, no dia que assassinaram o meu Amor, numa guerra estúpida, feita em teu nome? Poderás um dia esquecer que amaldiçoei a tua inércia, quando me devolveram ao destino de ter nascido europeia e de ter de morrer no outro lado do Mediterrâneo? Sahara, meu Pai, o meu coração ainda te pertence. Está enterrado algures numa duna, para sempre. Vive num Oásis construído por Allah e não me pertence. É teu, grande Sahara, Pai do povo livre, Pai dos homens sem nação que insistem em percorrer-te de lés-a-lés, que insistem em amar-te, apesar de seres cruel.

Sahara, meu Pai…o meu coração pertence-te e está enterrado em ti, algures numa duna, das muitas que te formam… Sahara, meu Pai, devolve-me Rûzgâr, como um sopro de vento suave, no meu ouvido…

Sahara, meu Pai, não há Deus nem Allah… há um deserto imenso chamado Sahara… há um Oásis no meio desse deserto para os filhos que o amam e o protegem… Grande Sahara…meu Pai… rezo pelo dia que também eu possa voltar a percorrer-te como uma brisa de vento, como um grão de areia, nesse imenso Universo que és!



(Este conto foi escrito, como prometido, para comemorar o regresso da Peste Suína. Peste, espero que gostes!)

Coisas estranhas...

Este senhor que começou a cantar não é nenhum problema no Blogger.

É a preparação para o primeiro texto interactivo do Frutó Xocolaty.
Para se ler o texto e se sentir o que a autora escreveu, tem de se ouvir este senhor a cantar.

É só hoje e amanhã. Depois o senhor vai cantar para a terra dele e no meu computador.

anjos...

.

Chamava-se Ana Raquel. Tinha 10 anos. Há pouco mais de um ano um médico informou os pais que seria necessário fazer-lhe uma operação à garganta para resolver alguns problemas de infecções nas vias respiratórias aéreas. Ficou em lista de espera.

Na semana passada foi chamada para ser internada no Hospital Amadora - Sintra. Ia finalmente ser operada.

O pai levou-a. Antes de ela entrar e ao despedirem-se, beijou-a amorosamente e disse-lhe baixinho: vai correr tudo bem.

Algum tempo depois da operação um médico veio comunicar-lhe que a sua menina não tinha acordado da operação. Estava em morte cerebral.

Esteve assim quatro dias, depois partiu.

O pai não se conforma com a morte da sua menina. Chora e pergunta porquê.

Ainda não sabe de que morreu a menina que era a sua filha mais nova.

Ana Raquel , não te conheci, não quis ver a tua foto nas mãos do teu pai, mas vou recordar-te sempre como um anjo que partiu, serenamente, olhando com amor os que eventualmente por erro mataram as tuas células cerebrais.

Não queria estar na pele daqueles médicos. Como conseguirão dormir daqui para a frente?

Adeus Ana Raquel.

aulas de inglês...

.

Li, algures ontem, que no Porto a ANTRAL ( associação dos proprietários de táxis), vai promover uma acção de formação que possibilite aos taxistas aprenderem a falar inglês. Assim estarão mais bem preparados para receber os turistas que o Porto espera receber na altura do Euro2004.

Acho bem, é sempre bonito receber bem os que nos visitam.
Estas preocupações ficam bem neste país. Estão de acordo com a dimensão que temos. Já não ficariam tão bem aos espanhóis. Não passaria pela cabeça de um espanhol falar inglês dentro de um táxi! Vá se lá saber porquê.

Aproveito para fazer uma pequena sugestão: façam também uma acção de formação no âmbito das boas maneiras e da educação. Alguns iriam beneficiar muito…

14 Janeiro 2004

ODES

"
As rosas amo dos jardins de Adónis
Essas volucres amo, Lídia, rosas,

Que em o dia que nascem,
Em esse dia morrem.

A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam

Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.

Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente

Que há noite antes e após
O pouco que duramos."

(ODES DE RICARDO REIS)

Já não sei de nada...

só sei que isto é razão para ter a Judiciária à perna.

Então não é que alguém veio parar ao Frutó Xocolaty pela pesquisa: "Martim+Moniz+Erva"...

Eu juro que não escrevi nada daquilo Sôr Agente! Eu juro! Elas também não escreveram..cá no Bairro já não vendemos erva há muitooooo...e no Martim Moniz nunca o fizemos! Juro...pelas alminhas de todos os meus familiares que partiram!

Juro!

ãããhhh? Busca por Xocolaty Blog?

Não, não sou eu! Este blogue nem é meu! Emprestaram-mo e eu venho aqui escrever as mágoas que me atomentam! Não sou eu, essa Xocolaty com Blogue e que fala em erva no Martim Moniz não sou eu!

Juro!

13 Janeiro 2004

Adorei...

Este Laerte deixa-me a rir por horas a fio... já me doi a barriga de tanto rir por causa disto:

personalidade felina

.
Leio na Revista SOS Saúde de Novembro e espanto-me:

«OS GATOS ESTÃO NO BANCO DOS RÉUS. Uma investigação de universidades britânicas, checas e americanas vem afirmar que estes felinos infectam os humanos com um parasita – o toxoplasma – que pode alterar a personalidade! Ao que parece o sexo masculino torna-se mais agressivo, anti-social e menos atraente, ao passo que elas ficam mais promíscuas, atractivas e menos confiáveis. Calcula-se que metade dos britânicos tenha o toxoplasma no cérebro. Desconhece-se a percentagem de portugueses infectados.»

Se isto for verdade começo a perceber algumas coisas...

Miauuuu….Miauuuu….Miauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu….


12 Janeiro 2004

Soneto do Tempo Perdido



Passo às vezes os dias distraído
de mim; vou ao café, vou conversar,
e não paro um segundo a escutar
o que terá cá dentro acontecido.

Vivo a vida dos outros, esquecido
de que o meu Fado é mais do que passar:
ah! bem sei eu que vim para contar
a minha alma plena de sentido!

Muito me dói o que fugi então!...
- Pra mim próprio me pus costas-voltadas,
e, tudo que em mim foi, foi tudo em vão.

Quanta coisa foi quase pequenina
(e surgira pra ser das celebradas),
só por eu ter burlado a minha Sina!

Sebastião da Gama, Último Livro (1945)

11 Janeiro 2004

Humor

(no estado normal...finalmente)


Cavaleiros do Apocalipse, Laerte

Não me peças para mudar...


www

Deixa-me ser livre como uma papoila num campo, ao vento e em liberdade!

Ama-me como sou...

10 Janeiro 2004

Humor Macabro - dia 3

.
Hoje perdi o amor a 1,30 € e comprei um Pão Alentejano.

Que luxo, não é?

É verdade!

Mas, estes preços exorbitantes têm uma vantagem!!!!!
Este é o melhor combate à droga!!

Por este andar, daqui a 5 anos havemos de ver portugueses a snifar Farinha Branca de Neve Extra Fina e a injectar Farinha de Milho 100% Pura..

Nota para memória futura nº 27

Esta foi a verdade mais verdadeira que li, desde sempre, na Blogosfera:

"Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado."
George Orwell, 1984

Retirei-a do Cegos, Mudos e Surdos.

Pensa nela António. Diz tudo sobre a pedofilia e os negócios escuros que se atravessam, todos os dias, à nossa frente (em Portugal e no mundo).

09 Janeiro 2004

Mantendo o dito humor macabro...

Tenho um hobby, que acentuei com o desemprego e com os cafézinhos matinais com as amigas desempregadas:
A leitura das secções sentimentais das revistas cor-de-rosa, nos salões de cabeleireiro e nos cafés frequentados por domésticas.

Confesso, é uma tara macabra. Tiramos umas valentes gargalhadas da correspondência sentimental.

Ora, hoje lemos o "Correio Mulher", suplemento do Correio da Manhã à sexta-feira! Estimulante...para qualquer cabecita depravada e demasiado criativa como a minha!

Cá vai a transcrição do melhor do Correio Mulher (o qual superou de longe o "ménage à trois" da Elsa Raposo):

"Possível Compromisso

Jovem, 42 anos, divorciado, procuro senhora para convívio directo e possível compromisso, de Lisboa ou arredores.

96 XXX XX XX"

Agora digo-vos, superou, pois com 29 anos já me sinto meio cota e descobri, por este anúncio sentimental, que sou uma bebé...agora imagino, se ele é jovem, que idade terá uma senhora? 60 anos? 70?

E... é melhor parar o raciocínio por aqui, não vá chocar os leitores mais susceptíveis nos pormenores dum "convívio directo" entre um jovem de 42 anos e uma senhora de 70...

08 Janeiro 2004

Mais revelações sinistras...

Continuando na análise do contador do Blogue, descubro que algumas pessoas vieram até nós pela pesquisa em apontadores mundiais das seguintes palavras:
fruta, magicos, vinho, hoje, portugueses, esteriotipos, onde, de, maquilhagem, turquia, portugal, 1814, Portugal, cogumelos, na, bombons, em, PSP, porto, casa, pia, apanhar, noiva, Damaia, Magia.

Agora vejam quanto pode ser sinistra a junção destas palavras:

"A fruta que os mágicos usam no vinho fazem, hoje, dos portugueses esteriotipos. Onde, de maquilhagem completa se vai para a turquia e se volta para portugal, perdão... Portugal.
Em 1814, também, os cogumelos e bombons eram oferecidos à noiva, que corria da Damaia ao Porto para os apanhar. Parando na PSP onde, depois de os engolir, gritava: É Magia!!!"

Sinistro, não é?

As coisas que se aprendem num contador de visitas...

Conclusões

Depois desta aterradora experiência do "post" anterior, percebo as entradas em massa de Inglaterra, Estados Unidos e Canadá que o Frutó Xocolaty tem!

Devemos ser citadas nas escolas como um péssimo exemplo de Inglês, sem termos culpa disso.

Um dia destes, encho-me de coragem e vou tentar entender as visitas de Taiwan, China e Irão. Suponho que sejam por motivos igualmente sinistros.

Quanto aos leitores brasileiros que nos lêem todos os dias, Xocolaty não é um termo usado em Portugal. Fui eu que inventei, sem saber que era tão usado no Brasil por jovens bloguistas. No entanto, me lê, vaiii...

Traduções

A minha criatividade está a níveis sinistros hoje. Dignos de uma filha do pai Cebolo.

Lembrei-me de ler este Blogue com a ajuda da tradução, para inglês, do Yahoo.

Ora, riam-se da forma como fica um poema da doce Gelatina, depois de traduzido pelo Yahoo:

"
30.11.03
Prece
You gave "dom to me" of the Vision...
e I did not ask for You!
You gave "dom to me" of the Word...
e I did not ask for You!
You gave "dom to me" of the Writing...
e I did not ask for You!

E as if, with this, did not feel me rich...
You gave "dom to me" of the Hunger, without You asking for!

Exactly thus...
Debtor!

Now Peço-Te, she gives the Perpetual Rest to me, please!


//posted by Gelatin @ 12:49"

- Um poema tão lindo e assim brutalizado pelo Yahoo...

Para os que adoram rir e acharam pouco...segue neste link o meu pedido de tradução completo, do Blog "Xocolaty Fruit - Equal to as much others and... however different"

Banalidades de Bananas

.
Neste momento, 90% dos meus conhecimentos pessoais estão desempregados.

Refiro-me a pessoas entre os 25-35 anos, com habilitações desde o 12º ano a pós-graduações, com experiência técnica profissional bastante qualificada, residentes na área da grande Lisboa e distrito de Setúbal, com família, casa para pagar...

Enfim, 90% das pessoas que conheço e que deveriam pertencer à população activa, estão desempregados, porque alguém, um dia, decidiu que eles não prestam!

Intrigante não é?

07 Janeiro 2004

Um percurso...

Ele foi à televisão e esteve em directo e em simultâneo em todos os jornais da noite para dizer aos portugueses que estava inocente.

Disse-o a chorar!

Chorava e falava com um ar de vítima que quer, acima de tudo, provar que está inocente. Disse que não sabia do que era acusado, que não conhecia os outros presumíveis arguidos no processo. Disse ainda que não conhecia o embaixador e nunca tinha estado na casa dele.

Depois de chorar em directo na televisão e durante o jantar, da maioria de nós, ele foi preso. Isto foi há mais de um ano. Entretanto voltei a vê-lo há uns meses, de novo na televisão. O “senhor televisão” ia à presença do juiz para ser novamente interrogado. Nas imagens que vi, retive que estava bem disposto, fazia gracinhas gesticulando com os dedos da mão direita sobre a boca, dando a ideia de que o não deixavam falar. Todos entendemos que, se ele pudesse, nos contava a verdade toda. Mais tarde soubemos que ele, ou alguém da sua família, andava a pressionar as vítimas para se manterem em silêncio, querem que as vítimas tenham medo.

Depois os amigos fizeram mais um jantar para o homenagear. Foi uma festa com direito a mensagem gravada em telemóvel, tratada em estúdio para que todos nós a pudéssemos ouvir, também em directo. Ele disse que estava grato a todos pelo apoio e que continuava a não saber de que estava a ser acusado. Durante todo este tempo os admiradores mais coerentes têm marcado presença à porta da Judiciária, ou da prisão. Levantam cartazes onde lhe dizem o quanto acreditam nele e na sua inocência.

Tenho visto aquela mulher quase menina, com a filha ao colo, sempre na defesa do seu marido, repetindo ser bom pai e um marido carinhoso. Aliás, tenho visto a actual mulher e a anterior, que também não desanima, e lá vai firme em defesa do amigo ex-marido. Durante todo este ano e por diversas vezes, ele tem invadido a minha casa e entra-me sempre da mesma forma: na abertura do jornal da noite. Não sei se é culpado mas dentro de mim algo me diz que este homem tem uma inquietante maneira de se defender.

Meu Deus! Que obscuras razões, que medonhas culpas, que sinistras coisas escondidas terá um homem para ter este percurso público, onde não faltou nada, até um programa onde ele tinha como interlocutores as crianças mais inteligentes do país? Como pode este pai amigo, nas palavras da filha mais velha e, nas do filho da ex-mulher, dormir tranquilo? Dizem os amigos que sofre do coração, mas ele terá coração?

Mesmo que se faça um grande esforço e se consiga presumir a sua inocência não é legítimo perguntarmos por que razão, os familiares e amigos dele, têm nas mais diversas ocasiões mostrado um tão grande ódio pelas testemunhas de acusação? Não me consigo esquecer nunca, mas nunca, que sempre que falamos de vítimas, neste processo, estamos a falar de crianças que um dia, subitamente, e de forma violenta o deixaram de ser.

A equipa de psicólogos, que tem acompanhado estas crianças, não tem dúvidas ao afirmar que elas dizem a verdade e têm sempre insistido que as crianças estão assustadas. Há dias apareceu uma psicóloga americana a dizer que, na sua experiência de vários anos acompanhando casos de pedofilia nos EUA, as crianças fantasiam, criam situações que depois ao serem analisadas os técnicos podem concluir que são falsas. Quem mandou vir esta senhora? Quem lhe pagou? Quem é ela de facto? Que provas temos da seriedade do seu trabalho?

Todos sabemos que, de facto, a fantasia é um maravilhoso atributo da infância, sabemos que a mentira é um conceito que a criança leva tempo a conhecer. Mas sabemos, também, que aqueles meninos e meninas já deixaram de o ser. Hoje são algo entre uma infância criminosamente roubada e uma idade precocemente adulta, onde não se conseguem reconhecer.

Qual será o seu futuro? Os seus depoimentos não tiveram direito ao registo para memória futura. Porquê?

Ele tem uma excelente equipa de advogados que trabalham no sentido de lhe conseguirem a inocência. Ultimamente não têm aparecido mais sósias dele. O ruído instalado à volta do processo é um escândalo. Se for declarado inocente, virá de novo, à hora do jantar e em directo, gritar triunfante que finalmente foi feita justiça. Voltará a fazer anúncios para nos convencer que aquele é o melhor seguro?

06 Janeiro 2004

Victor Vicêncio Venâncio Verruga Vicentino,

nasceu com nome de artista de novela, alma de palhaço e um coração do tamanho do Universo, numa aldeia entre o Atlântico e a Serra de Sintra, algures no início do séc. XX.

Victor cresceu na praia por entre o mar e a areia, o cheiro das algas naufragadas e o peixe ainda a saltar nos barcos dos pescadores.

Contava, com alegria, que quando fez quatro anos de idade, teve o melhor presente da sua vida. O circo montou barraca na aldeia e Victor conheceu o seu primeiro Amor! “Ah, O circoooooooooo….” Dizia, já velho, olhando para o céu e imitando a sua cara de espanto quando viu pela primeira vez a tenda do circo. “É grande e colorido e tem tantos bichos, mais do que a cidade, o país, o mundoooooooo…”, continuava Victor a imitar as suas frases de admiração.

Continuava ele com aquele brilho nos olhos de criança grande: “Sabes? Obriguei a minha irmã mais velha a levar-me ao circo. Queria ver os bichos. Ela disse-me que não tinha dinheiro e eu fui pedir para a porta da igreja. Juntei os tostões necessários para dois bilhetes e fomos ver o maior de todos os espectáculos. Apaixonei-me pelas barbas da mulher barbuda, pelas cambalhotas e cornetas dos palhaços, pela força e destreza do domador de feras, pela graciosidade do corpo da contorcionista e jurei a mim mesmo que um dia também eu ia trabalhar num circo, um dia eu ia ser um grande palhaço”.

Quando fez treze anos e o obrigaram a seguir a vida do mar, profissão de pescador, como o pai, os irmãos, o avô, o bisavô, Victor fugiu para a praia à noite e jurou à Lua: “Vou fugir com o circo! Vou ser palhaço!”. Nesse Verão, em Agosto, o circo voltou à aldeia, Victor não foi ver o espectáculo. Pela primeira vez, desde que conheceu o circo, entrou na carroça do director e disse: Quero ir com o circo e ser palhaço. O dono do circo riu-se com aquele miúdo atrevidote. Disse-lhe: “tens de trabalhar antes de entrares no espectáculo! Tens de ajudar a tratar das feras, a montar a barraca e só depois poderás ser palhaço!”. Victor aceitou e partiu com o circo.

Foram cinquenta anos de alegria, a fazer os meninos rir, a melhorar a vida de cada criança, a dar um sinal de esperança a cada rosto, a ajudar os adultos a esquecer a vida!

Hoje, coloca o nariz vermelho batatudo, solta uma gargalhada contagiosa, dá um salto na minha direcção, molha-me a cara com a água-de-colónia da sua flor de palhaço e diz: “Victorrrrr Vicênciooo Venâncioooo Verruuugaaaa Vicentinnnoooo… o palhaço vaidoso de gravata ao pescoço, nariz batatudo e pé pontiagudooooooooo… conta-te esta história porque tem boa memória… dá-te uma flor, porque és um amor… e um beijinho muito fofinhoooooo!”.

Eu rio-me no meio das palhaçadas do Victor Vicêncio Venâncio Verruga Vicentino, que fala em verso e sotaque carregado nos “vês” e nos “erres”, que salta e pula como uma mola gigante, com alma de criança e coração muito grande e penso: Há melhor coisa que ganhar a vida a rir, fazer rir e ser feliz com isso?

05 Janeiro 2004

Joana Leoa fugiu de Angola…

… cansada da guerra!

Tinha onze anos, escondeu-se no porão de um cargueiro e fugiu. Do pai português, um dos muitos soldados que por lá passaram e da mãe angolana, nasceu Joana. Um mulata hipnotizante, olhos verdes de gata, andar traiçoeiro, que ainda hoje, aos quarenta anos hipnotiza os homens menos prevenidos. Dizem os entendidos, nestas coisas de andares de mulheres, que Joana Leoa é uma mistura de olhar de fera, andar de corça, graça de águia e porte de égua.

Para mim, que sou mulher, Joana Leoa tem o nome à altura do que é: mulher livre que sabe o que quer! Passa na rua e ouve-se baixinho nas bocas dos hipnotizados e das invejosas: “Lá vai…a Joana Leoa…andar de fêmea, sorriso de fera”.

Sabem lá eles o que é estar cansado da Guerra e fugir uma vida inteira. Fugir lá, fugir cá e não ser daqui, nem dali. Ser apenas do vento, da chuva, da terra, do mar… ser o fogo da alma… não sermos de nós, nem de ninguém, sermos do destino e da sorte! Sabem lá eles, Joana…

Joana Leoa cansada da guerra… da guerra do mundo, da guerra dos homens, da guerra da raça, da guerra da vida...

Desce a Avenida, com andar bamboleante e lá pára o trânsito, mais as conversas, mais as máquinas e os homens, mais mulheres e crianças, mais os gatos e os cães … e do silêncio nasce o eco das vozes de espanto: "Lá vai a Joana…Leoa…"

Passa e não pára, cumprimenta quem lhe fala, sempre sorridente e feliz, como se a vida fosse a sua selva…de Leoa. Como se não trabalhasse na copa daquele restaurante na Avenida, como se não vivesse naquele quarto alugado em Campo de Ourique, como se a vida fosse um palco, em que o público cai num êxtase de palmas, por ela… Joana Leoa cansada da guerra e feliz com a vida.

Sai do restaurante, depois de um dia a fugir do cozinheiro e do chefe de sala e ainda do gerente e do patrão, mais a mulher do patrão. Toma um banho rápido, na casa-de-banho partilhada, na casa de hóspedes e lá sai a Joana, a passo de trote, para um pé de dança, nos Alunos de Apolo.

É vê-la dançar o tango e voar com o compasso da valsa, é vê-la sorrir bamboleando as ancas ao ritmo do merengue…e vê-la viver… para recordar que a vida é boa de se ter, só por cada momento de prazer, por cada segundo de alegria.

Joana Leoa não sabe ler, não sabe escrever, mas sabe viver! Vive a vida e todos os dias agradece a Deus ter fugido da guerra e ter motivos para sorrir. Na copa do restaurante, canta as canções de Angola e recorda a mãe, cantando no campo e cavando a terra.

Uma nota aqui, um passo acolá e venham mais tachos que estes já estão lavados e a vida continua ao ritmo da valsa, ao sabor do merengue e ao toque do tango. A vida segue, como na selva, diz Joana Leoa, gata de Lisboa.

04 Janeiro 2004

Delírios ...

de Xocolaty ao som de Ella Fitzgerald e Duke Ellington:

It Don't mean a thing...you ain't got that swing...

dua dua dua dua...
di di dirup...
shiba dua dua...

rain rain duaiiiiii.... come in some other day...

"Catacumbas"

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Estávamos em 1943, no auge da Segunda Guerra Mundial. Na Europa morria-se de guerra, de doenças, de fome e de desespero. A França estava em ruínas, a Espanha tentava levantar-se da sua própria Guerra Civil, a Alemanha começava a cair de podre, a Itália já tinha dificuldades em fingir uma força demasiado superior à realidade, a Polónia não existia, o Reino Unido teimava em levantar-se ataque após ataque, os Estados Unidos andavam por cá a dar uma ajudinha na Guerra e em Portugal vivia-se o jogo comum a todos os países “neutros”: a Espionagem.

Lisboa e Zurique foram eleitas as capitais mundiais da espionagem. Sendo Lisboa a preferida, pela ignorância e ostracismo ligados ao povo português e que Salazar insistia em pendurar ao peito, como uma medalha de honra. Nos anos quarenta, a Cidade Iluminada pelo Sol e guardada pelo Tejo era o grande palco da espionagem mundial. Aqui se juntavam ingleses, franceses, americanos, alemães, japoneses, italianos, russos e outros tantos cuja nacionalidade me fugiu da memória, pelo tempo. À mesma mesa, se discutia o futuro do mundo, como se as nossas vidas fossem a consequência duma partida de poker.

Havia na cidade e penso ainda existir, porque estas coisas não se destroem, uma entrada algures na Baixa Pombalina para as “Catacumbas”. As Catacumbas eram e são as galerias que existem por debaixo da cidade, no que terão sido os esgotos e os corredores de fuga de antigos reis e altos membros do Clero. As “Catacumbas” eram, também, um bar no subsolo lisboeta. Enquanto na cidade se cantava o Fado Vadio regado a copos de tinto, nas catacumbas vivia-se o ambiente sofisticado da época regado a copos de whisky, absinto, gin, vodka e ópio. Enquanto na cidade se jogava à batota às escondidas e a feijões, nas catacumbas jogava-se poker, a ouro, ao som dos Blues americanos.

O caminho começava por uma entrada camuflada, algures no Chiado, que mais parecia um acesso ao esgoto, percorria-se um longo corredor escuro e chegava-se a uma porta blindada. Batia-se na porta as vezes certas e alguém gritava do outro lado: “Senha?”. Respondia-se e entrava-se ou errava-se e era melhor fugir muito depressa com o risco de não viver para contar.

Lá dentro reinavam os tons da luxúria, o vermelho, o amarelo e o negro. A média luz, própria de qualquer catacumba, dava ao local uma magia singular. Havia um balcão à esquerda, onde dois homens satisfaziam a clientela com os mais sofisticados cocktails e as mais proibidas bebidas mundiais. O traje era obrigatoriamente a rigor e a clientela era da mais sofisticada, usando os mais elevados padrões mundiais. À direita de quem entrava e, imediatamente em frente ao balcão do bar, estavam as mesas (cerca de vinte). Fabricadas em mogno, redondas e pequenas, onde apenas se sentavam, no máximo, quatro pessoas. As mesas eram vestidas com pequenas toalhas de veludo vermelho, com rebordos dourados e cada uma tinha um candeeiro pequeno com uma luz vermelha, cujas formas imitavam fachos. As cadeiras eram confortáveis e também elas forradas a veludo vermelho.

À frente das mesas (portanto, ainda mais à nossa direita) havia um palco onde se reproduziam os melhores blues do mundo. Uma mulher cantava aquelas notas magníficas em que a voz parece um saxofone, um trompete, um pássaro… ou apenas uma mulher com uma voz fantástica que nos prega à cadeira e nos faz sonhar com ambientes mais saudáveis. A acompanhá-la havia um saxofone, um trompete, uma bateria e um piano. Dançava-se onde houvesse espaço e, mesmo os espiões sentados na penumbra do bar, mexiam o pezinho de forma nervosa e incontrolável.

Se continuássemos a andar e atravessássemos o balcão do bar, havia uma cortina de veludo vermelha que parecia indicar-nos os lavabos. Estava guardada por um homem alto e entroncado que nos impedia o caminho e dizia: Os lavabos são à sua esquerda, Cavalheiro (ou Menina). Mas… imaginando que entrávamos sem dificuldades, iríamos encontrar aquilo que nunca nos passaria pela cabeça haver em Lisboa. O primeiro impacto eram as salas de “reuniões” fechadas e guardadas por seguranças, onde os espiões discutiam de formas inarráveis os jogos e destinos da guerra. Continuando a andar, encontraríamos uma sala de jogo, onde se jogava roleta e jogos de cartas e se ganhavam ou perdiam barras de ouro.

Ainda mais à frente, e deixando o som mágico dos blues para trás, havia mais uma sala, onde tínhamos de dizer mais uma senha e, se estivesse certa, era-nos imediatamente oferecido um cachimbo e um pouco de ópio. Indicavam-nos um compartimento onde poderíamos fumar, deitados e entregarmo-nos aos delírios de luxúria próprios do ópio em estado puro. Ali, o ambiente era oriental. Os compartimentos lembravam divisões chinesas, onde nos deitávamos no chão, em almofadas de veludo azuis e negras, com motivos orientais. Era-nos permitido fumar a sós ou acompanhados e viajar até onde as papoilas nos levassem. Ninguém, mas mesmo ninguém nos incomodava a privacidade e era servido chá, de tempos a tempos, em tabuleiros em madre pérola, debruados a ouro, que entravam nos compartimentos por umas portinholas existentes nas portas, em baixo.

Estas eram as Catacumbas, o mais secreto bar lisboeta, um dos itinerários preferidos pela elite mundial, pelos eleitos que ganhavam com a guerra. Aqui, tudo valia, desde que se pudesse pagar na moeda certa, o ouro ou o ópio. Aqui, não existia a palavra pecado, apenas prazer.

Entretanto, a guerra terminou, as “Catacumbas” fecharam e perderam-se nas memórias do tempo. No entanto, existem muitas outras pelo mundo, com o mesmo objectivo, o mesmo tipo de clientela, noutros locais e com outra “cara”…

02 Janeiro 2004

Desenhos de Amor


Etreinte, Pablo Picasso, Período Azul (1901)

Se o meu Amor pudesse, em ti, desenhar,
Faria:

Na testa, os meus lábios
Com doce de morango
Que seriam os meus beijos.
Nos teus lábios, colocaria
Uma cereja cristalizada
E mais uma em cada orelha.
No peito, o meu coração
Por cima do teu…
Com chocolate derretido.
No umbigo, desenharia
Um seta para baixo
Com leite condensado.
No alvo que a seta indica,
Seria chantilly…