Hoje apetece-me escrever sobre este amor que dura praticamente desde que nasci. São vinte e nove anos de vida em que os gatos entram e saem da minha vida, de acordo verbal mostrando livre e plena vontade.
Foram muitos os gatos que amei e que partilharam a minha vida. Todos tiveram nomes. O meu primeiro casamento, que durou catorze anos, chamava-se Tareca. Conheci-a com sete anos e, na fase de criança rebelde e envolta em demasiados desgostos e preocupações para a idade, foi amor à primeira vista. Ela ia comigo ao supermercado, ela ia comigo brincar na rua, ia acampar para a praia e pulava atrás de mim na areia fugindo das ondas. Na adolescência e nos fins-de-semana passados com o namorado, a Tareca esperava pacientemente o meu regresso, deitada na minha cama, virada para a porta da rua, fazendo intervalos rápidos para comer e usar a casa-de-banho. Esperava por mim, como uma mãe espera pela filha que tarda em regressar e quando eu voltava era uma festa de miados e beijinhos.
A Tareca percorreu a minha infância, adolescência e, quando comecei a viver sozinha, manteve-se comigo como fiel companheira. Um dia ganhou um quisto numa mama e foi uma questão de meses até ao momento da morte. Chorei, como teria chorado por uma irmã, por uma filha. Só entende quem passou por uma experiência destas. É difícil descrever. Mas, hoje, passados cinco anos ainda recordo a Tareca deitada na cama sem se conseguir mexer, olhando-me nos olhos, miando baixinho. Na última noite de vida ela chorou. Levantou-se, veio na minha direcção, deitou-se no meu colo e gemeu baixinho, olhando-me nos olhos... como se chorasse no momento da despedida. Foi uma dor muito grande decidir abatê-la, poupar-lhe aquela dor e foi uma dor muito maior, mas um alívio, quando ela me morreu nos braços a caminho do veterinário. A minha doce Tareca, a mais doce recordação de infância e adolescência.
Nos dias seguintes, entrar em casa e ouvir o silêncio era horrível. Fugia de casa, evitava dormir aqui, na austeridade do vazio. Abria a porta e faltava-me a minha companheira de vida, que me seguia para onde quer que fosse, me aquecia no Inverno, me lavava as mãos, me avisava de quem subia as escadas.
Um dia tomei a decisão de ter mais um gato. Pouco tempo depois foi-me oferecido um gato preto de olho verde com três meses. Era uma pulga eléctrica saltitante e a casa voltou a ter vida. Eu voltei a arranjar desculpas para vir para casa. Tinha quem me esperasse. Queria chamar-lhe Sebastião, mas fui proibida pela minha mãe, não fosse o outro Sebastião sentir-se ofendido por ter um gato homónimo. O meu seria Sebastião José de Carvalho e Mello, mas foi rejeitado na mesma.
No entanto, eu defendo que os gatos devem ter os nomes adequados à sua personalidade e sempre sonantes, pois felino nenhum tem personalidade passiva. Ficou Barbazul, o gato preto que se torna azul, com o brilho do pelo na luz! Barbazul, o pirata que coleccionava namoradas pelo mundo.
Mais tarde decidi que deveria haver uma namorada, pois essa foi a minha grande mágoa com a Tareca. Morreu virgem! Falei com a Ginja, mãe adoptiva de cinco gatos e adoptada por outros vinte das redondezas.
Veio duma viela, algures em Almada, a gata mais bonita que alguma vez vi. Pequenina, toda ela redondinha, parecia uma gata Lua. Castanha e riscas negras como um Tigre, arisca como um Felino com um grande “F”, meiga como uma menina órfã à procura de casa. Chamei-lhe Cleópatra, não só pelas riscas nos olhos, que lembram os olhos da homónima, mas também pelo alter-ego revelado em tenra idade e que a tornou na dona da casa. Cleópatra a imperatriz cá da casa. A gata de motor sempre “on”. Está sempre a ronronar e a olhar para mim!
No auge da felicidade conjugal felina, passados três anos da primeira entrada, lembrei-me de passear num Centro Comercial e de olhar para uma loja de animais. Vi um gato pardo, igual à Cleo, a pular dentro de uma gaiola, eléctrico, feliz. No fundo da gaiola estava uma bola de pêlo preto redonda. Olhei melhor e constatei tratar-se de outro gato. Estava doente, triste, cheio de ramelas nos olhos e no nariz. As pulgas já tinham pouco espaço livre para pular em cima dele e a barriga estava demasiado inchada pelos vermes que a habitavam. Conclusão: paguei dois mil escudos e lá veio o terceiro hóspede cá para casa. Foi uma faca no coração da Cleópatra, que não gostou de dividir o espaço com mais um felino. Foi uma alegria para o Barbazul, que descobriu a sua veia de mãe e foi o começo dos rios de dinheiro que já gastei em gatos e veterinário. Chamei-lhe Silvestre em homenagem ao gato que insiste em perseguir o irritante Piu-piu.
O doce e inocente Silvestre desapareceu não me lembro bem onde, em que lugar do tempo… dando lugar a uma fera preta, louca, vingativa, tarada por pernas, demoníaca. Estava claro que o nome tinha sido mal escolhido, pois o pobre Silvestre era um santo sempre enganado pelo pássaro irritante e eu tinha trazido cá para casa um demónio de quinze centímetros. Então surgiu a conjugação de duas palavras demónio e negro, ou seja Serafim (de anjo) e negro porque ele é preto como o carvão. Ficou Serafim! Foi educado pelo Barbazul e pela Cleópatra, respectivamente mãe e pai. A Cleópatra batia-lhe e procurava qualquer tipo de desculpa para um confronto directo, o Barbazul (como uma verdadeira mãe) protegia o menino, lavava-o, alimentava-o, ensinava-o a caçar (não sei como isto foi possível porque o Barbazul nunca caçou uma única mosca), entrava em batalhas ferozes com a Cleópatra. Enfim…esta casa transformou-se num apartamento de gatos, comandada por eles, com os seus problemas conjugais e familiares e habitada por mim, com a sua permissão.
Hoje, não imagino a minha vida sem estas criaturas que me tratam como uma igual, que enchem o espaço de vida, que ocupam o meu coração de carinho e que me fazem sentir uma pessoa especial. Mostram-me com todos os símbolos que existem na linguagem felina que, ser-se amado por um gato, é ser especial, é estar acima do comum dos mortais. Ser-se respeitado por um gato é motivo de orgulho para qualquer ser humano.
Hoje sei que se os homens amassem como os gatos, com sinceridade e pureza, não havia lugar para guerras no mundo, pois apesar das diferenças, existe sempre espaço para mais um, desde que se tenha consciência do território alheio.
Só posso agradecer às centenas de gatos que me passaram pela vida o terem partilhado o seu espaço comigo e só posso agradecer aos meus três bebés deixarem-me viver cá em casa. Os meus três bebés que pesam oito ou nove quilos cada um e que insistem em deitar-se todos em cima de mim ao mesmo tempo, esmagando-me contra qualquer superfície e lembrando-me que eu sou a humana deles.