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Chovia em Guimarães no Domingo à noite. Eu não estava a ver o jogo, o futebol não me interessa. Mas à minha volta comentava-se o jogo. De súbito olhei para o televisor e vi um rapaz a sorrir, belo, jovem, de cabelos louros molhados pela chuva. Depois voltou-se de costas, parecia que se queria curvar para a frente, muito lentamente, e sem se voltar caiu para trás em total desamparo, batendo com a cabeça no relvado. Fiquei presa àquela imagem. Já vi muitas encenações da morte no teatro e no cinema, mas nem por isso estou mais preparada para enfrentar a brutalidade do real. Quando vi em directo aquele rapaz, aos 24 anos, dobrar-se, cair, a cabeça a ressaltar no relvado, toda a fragilidade de vida se impôs aos meus olhos. De repente nada mais fazia sentido, o jogo perdeu todo o interesse, até para os adeptos que estavam na sala comigo, nem o jogo nem as rivalidades desportivas importavam.
E assim de repente aquele homem caído na relva passou a existir para mim. Passei a saber que era húngaro, que ia casar com a sua compatriota Adriene e que com o que ganhava em Portugal comprava casas no seu país para alugar a jovens estudantes a preços acessíveis.
Recordarei sempre o sorriso irónico e terrivelmente belo com que Miklos Fehér encarou a morte em Guimarães. Morreu em directo.
27 Janeiro 2004
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